Torta Caupi: um doce resgate de ancestralidade

Esta torta enche os olhos de alegria, reflete nosso processo e traz a política como categoria presente em cada combinação de ingrediente, nos sabores que experimentamos e nos encontros que criamos na tentativa de desenhar, ensaiar e propagar outras narrativas a cerca da cultura alimentar.

O que chamamos hoje de Torta Caupi é resultado direto da experimentação de uma sapatão que resgata de forma carinhosa e inspiradora os fazeres culinários presentes em sua história e de uma ânsia em experimentar o sabor das leguminosas em versão açucarada, pois sempre foi intrigante se deparar com o gosto doce da ervilha e do feijão macassar hidratados quando são trituradas sem tempero nenhum.

Muitos testes, muitas versões e apesar de não ser possível dizer ainda que chegamos numa receita final, temos um jeito mais ou menos já engrenado para saborear esta bomba de energia estimulante que guarda na sua história relações de apoio mútuo sexodissidente, ancestralidade e resgate de saberes e conhecimentos culinários não ocidentais.

A base é nosso queridinho de África, o feijão macassar, (fradinho, caupi, nhemba, cowpea, black eyes peas, karamani, lobya, etc..) região onde primeiro foi domesticada esta leguminosa que durante muito tempo foi a principal fonte de proteína de vários povos. Por volta de 2300 a.C, este feijão entrou no sudeste asiático, se fazendo presente na Índia, Indonésia e Vietnã, elevando a superdiversidade de receitas no repertório dos povos que habitam estes territórios em seus pratos salgados e doces, afinal esta é uma região que mescla a mistura de sabores. Nesta pesquisa instigante sobre leguminosas e descolonização, descobrimos que o macassar, o azuki, o mung (moyashi) e o urad são todes espécies do gênero de leguminosas, Vigna, ou seja, são parentes, e tem como característica principal ser toda comestível, além das semenestes, os brotos, folhas, tubérculos.

Partindo desta relação de parentesco, resgatamos o Anko ou Dòushā, uma pasta doce de feijão azuki, comum na China, Japão e Coréia com diferentes graus de preparação, consequentemente, foi possível acreditar na versatilidade do macassar e experimentar. A sapatão foi bem ao fundo e testou receitas doces com várias leguminosas, chegando em resultados que instigava insistir explorando e ao mesmo tempo nos foi revelado a presença de arroz e feijão macassar como doces nos Nombu Adai e Karamani Sweet Sundal, passando pelo Che Dau Trang, sua versão inacreditavelmente chocante com leite de coco sendo conhecida como uma espécie de pudim, até parar na Indonésisa e descobrir que o Hunkwe é o amido do feijão mung usado para fazer seus tradicionais bolos, o Kue.

Desta forma, com a certeza que seria possível e recuperando estes saberes culinários não eurocentrados, gourmetizados, e gastronomizados, fizemos vários testes até chegar na versão que hoje anda nas ruas e em alguns estabalecimentos que revendem nossas tortas. Assim, nossa contribuição para a valorização da versatilidade cultural e alimentícia do feijão macassar tem leite de coco, amendoim, óleo de girassol, açúcar demerara, cacau, cenoura caramelizada e calda de goiabada. Garantimos que essa sobremesa além de deliciosa guarda um sabor especial que atualiza a conexão de pessoas negras da diáspora com esta leguminosa africana, alinha saberes tradicionais com os direitos animais, atua no compartilhamento de informações rumo a uma descolonização alimentar, ensaia práticas de troca entre sexodissidentes e fortalece suas sobrevivências a partir do trabalho ambulante de alimentos.

Afrolícia em Porto Alegre celebra o encontro de saberes alimentares negros

Em novembro a Dhuzati volta a Comuna do Arvoredo em Porto Alegre, para proporcionar uma experiência inspirada no Mês da Consciência Negra em diálogo com os direitos animais. Em tempos que a ameaça fascista intimida corpos negros, sexodissidentes, femininos e indígenas, a importância de exaltar a cultura negra propagando e compartilhando conhecimentos, sabores, sonoridades e sentimentos afrocentrados, se faz necessário para que a resistência e os saberes de nossos ancestrais não sejam apagados pelos interesses de uma supremacia branca antropocêntrica.

Para nós é impossível debater negritude sem reconhecer que a ideia de raça se estende para além dos humanos, afinal essa premissa científica emergiu a partir de uma assimetria sobre as capacidades dos corpos baseada na biologia. Os corpos não brancos foram e são constantemente animalizados da mesma forma que os corpos não humanos são racializados. Acreditamos que é possível rearticular as políticas de libertação negra incorporando os animais não-humanos num movimento que renuncia as definições de vida branco e antropocêntricas.

O cardápio regado pela musicalidade de Kakau Soares é uma atração a parte, criamos uma combinação que resgata sabores originais e surpreendentes presente em África e as ressignificações da diáspora criada nas Américas, fazendo um encontro de criações africanas, passando pelo Sul dos Estados Unidos, Caribe, Brasil, Antigo Egito, África Árabe e Senegal. Será uma noite com muito axé e magia, que pretende unir e consagrar uma resistência que segue criando nas margens e driblando o apagamento necropolítico que vigia nossa existência.

 

Maafe

Originário do povo Mandinka e Bambara do Mali e conhecido como domodah ou tigadegena na língua destes povos, este prato é um guisado, caril ou molho de amendoim comum em grande parte da África Ocidental, que inspirou variantes na culinária das nações da África Central. É a comida favorita entre vários grupos étnicos do Senegal e da Gâmbia.

A região da África Ocidental e Central, não tem na marca de sua culinária grande influência europeia como em outras partes do continente, a cozinha destas duas regiões continuam próximas dos ingredientes e técnicas tradicionais, contudo a enorme expansão do cultivo de amendoim, nativo das Américas, durante o período colonial, transformou o Maafè numa comida popular em toda a África e a mandioca, o amendoim e algumas espécies de pimenta, que chegaram junto com o comércio de pessoas escravizadas em meados do século 16, tornaram-se parte dos sabores de vários povos africanos.

As receitas para o cozido variam muito, mas o Maafe é tradicionalmente servido com arroz branco (no Senegal , Mauritânia e Gâmbia), fonio ou mingau de milho (Mali), cuscuz (Saara), ou fufu e batata doce nas áreas mais tropicais (Costa do Marfim). No Afrolícia ele será acompanhado com o Hoppin’John uma espécie de baião de dois da américa negra.

Hoppin’ John

Esse clássico da culinária negra no sul dos Estados Unidos, está presente na cultura alimentar de vários lugares, com nomes e preparos diferentes. As primeiras receitas aparecem em livros que datam da década de 1820, embora a população negra tenha realizado essa mistura de arroz com feijão macassar, fradinho, caupi ou nhemba muito antes disso. Este feijão passou a ser cultivado na África Ocidental e foi trazido na diáspora, utilizado para alimentar africanos ocidentais escravizados no caminho das Américas. No início de 1700, o feijão macassar se expandiu nas colônias da Carolina e, como na África, foram plantados nas fronteiras dos campos para ajudar a conter as ervas daninhas e enriquecer o solo, fazendo deste ingrediente um dos poucos alimentos ligados fortemente a cultura afro-americana e do sul. Uma das justificativas para o nome do prato faz referência a um senhor negro que ficou conhecido por vender a iguaria nas ruas de Charleston.

Fato é que Hoppin’John faz parte do arcabouço culinário negro, sendo uma versão do Thiebou Niebe de Senegal, do guianense Cook-up Rice e do nordestino Baião de Dois, onde todos preservam o feijão de África como base. Porém várias receitas usando as leguminosas nativas criaram versões que incluí outros tipos distintos de feijão como Arroz con Gandules em Porto Rico, Gallo Pinto na Nicarágua e Costa Rica, Pabellón Criollo na Venezuela e Moros e Cristianos de Cuba.

No final do ano, para os afro-americanos e no sul dos Estados Unidos, faz parte dos rituais festivos servir esta delicia para chamar prosperidade e sorte e isto inevitavelmente tem a ver com a simbologia que a negritude guarda sobre esta preciosa espécie de feijão.

Tameya

Como já falamos aqui outras vezes, tudo indica que a técnica de hidratar leguminosas, temperá-las e aquecê-las surgiu no Egito por volta de 5.000 anos, ainda nos tempos dos faraós. Esta receita original era feita com favas, semente de coentro e endro, além dos ingredientes ainda hoje preservados como salsa, cebola e alho. Do contato com esta técnica os árabes incorporaram o grão de bico e criaram o falafel, já os iorubás usaram seu feijão macassar e criaram o akara que no Brasil virou acarajé. Mas o fato é que no Egito essa iguaria ainda é reconhecida como ta’ameya, preparada com favas e vendida fortemente nas ruas.

Vatapá

Um dos ícones da culinária baiana também é perseguido por severas controvérsias sobre sua origem, salpicada por divergências e desconfianças. A versão que temos hoje, na maioria dos sites e livros dedicados a culinária, não deixa dúvidas de sua afro-baianidade. Os iorubás realizavam uma preparação similar que nomeavam de ehba-tápa, aqui foi acrescentado o amendoim, a castanha de caju e o leite de coco. O Vatapá também é popular no Amazonas, no Amapá e no Pará, mas esta receita sofre variações como a ausência de amendoim e dendê.

Chermoula

Criado no Marrocos, mas presente na Argélia, Tunísia e Líbia, a Chermoula tem um rico sabor de ervas, especiarias e azeite de oliva transformando o combo num molho maravilhoso. Em sua mistura ainda conta com a participação do coentro e do cominho, que não por acaso, foram incorporados de maneira ímpar na culinária nordestina, região do Brasil onde se concentra a população negra. O molho ainda leva pimentas frescas.

Didi

Uma sobremesa de criação da Dhuzati inspirada no conkie do Barbados, uma espécie de pamonha doce cozida a vapor, com abóbora, coco, uva passas numa massa com base de fubá. A receita foi escolhida por preservar um tipo de técnica presente na cultura negra que é de envolver uma massa espessa em folhas ou palhas de vegetais e cozinhar no vapor. Nossa versão será assada no forno sob folhas de bananeira, e foi nomeada homenageando Didi Winston, ativista trans num país onde relações não heterossexuais são tipificadas no código penal apesar de ser raramente aplicada.

Stella

Homenageando a Mãe Stella de Oxóssi, maior e mais importante Ialaorixá viva do camdomblé, mulher negra e lésbica. Esse suco de hibiscos com laranja e hortelã trás a marca das violências lesbofóbicas e um chamado que visa alertar a comunidade em prol dos direitos animais sobre as noções de respeito em relação aos animais não humanos que as cosmologias africanas ameaçadas pelo colonialismo e antropocentrismo guardam. Esta bebida preserva o resgate das sexualidades, afetos e relações entre espécies que acabaram sendo adestradas, criminalizadas e estigmatizadas pelas instituições da modernidade eurocêntrica.

SERVIÇO
Afrolícia: uma experiência afrovegana
Comuna do Arvoredo, Fernando Machado 464, 19h
Porto Alegre, RS

Torta de Acarajé chega no interior de São Paulo aliando conhecimento alimentar afro sem ingredientes de origem animal com luta pela terra e contra os agrotóxicos

Uma de nossas criações mais exitosas, a Torta de Acarajé, nasceu com o objetivo de resgatar práticas culinárias ancestrais sem ingredientes de origem animal e visibilizar uma noção de respeito aos animais não humanos dentro da cultura afrobrasileira. Por ser resultado de uma técnica que permite preparações muito versáteis, descobrimos que as leguminosas já foram a principal fonte de proteína das pessoas menos privilegiadas, além da hidratação delas serem datadas do Antigo Egito inspirando receitas específicas em vários países da África e da Ásia.

É com muito orgulho que a gente compartilha este relato na certeza que este conhecimento continua sendo passado através de alianças políticas e fazendo diferença na vida de mulheres e dissidentes sexuais, contribuindo para a preservação de uma prática de comércio autônomo e ambulante de alimentos realizada desde a costa ocidental da África, como forma de autonomia e empoderamento.

Em São Carlos, foi vendida de forma ambulante nas ruas e em eventos, adentrando na Feira de Orgânicos de São Carlos, uma iniciativa autogestionada em pé de fortalecimento próprio, que luta pelo espaço e emancipação dos agricultores orgânicos da cidade na guerra contra os agrotóxicos e pela sobrevivência da agroecologia familiar, muito presente em toda a região. Do Assentamento Santa Helena, da Ecovila Tibá, da família de Adriana e Seu Luíz, do CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura) até a loja de alimentos orgânicos DaTerra, a feira, acontece todos os sábados, das 7:30 até as 13:30, com Roda de Capoeira Angola Mãe e uma atração cultural semanal diversa, paga com arrecadação de cada empreendimento ao fim do dia. Ainda conta com cerca de 10 barracas de agricultores com verduras e legumes, 3 de artesanatos e 5 empreendimentos da praça de alimentação, com caldo de cana, pães, sucos, salgados, pastéis orgânicos (até a massa). A Torta de Acarajé têm integrado a praça de alimentação, com o feijão de corda hidratado para a massa e recheios orgânicos provindo das trocas com os agricultores.

Neste mês de Setembro, com o apoio de cerca de 32 empreendimentos autônomos da cidade, mais o patrocínio da Prefeitura, acontecerá a semana da Agricultura Orgânica de São Carlos, organizada por muitos integrantes da Feira. Uma semana inteira de programação voltada para a “Luta pela permanência na Terra”, com debates trazendo ao cerne as resistências da produção orgânica local, suas dificuldades, organizações e importância dessa permanência contra a expansão industrial dos agrotóxicos imposta pela sociedade e pelo Estado, oficinas, exposições fotográficas, atrações culturais e shows com samba de côco Chinela Baixa e o grupo de rap Militantes da Terra: Veneno H2. Será a inauguração oficial desta Feira, que terá sua divulgação e expansão para toda a cidade.

 

 

Frutos amazônicos

Ao nos deparar com a diversidade presente na amazônia, começamos a entender que é possível usá-la como arma contra a colonização alimentar. Com frutos apreciados integralmente, quase sempre crus e sem grandes preparos culinários a cultura alimentar amazônica tem muito a nos ensinar sobre descolonização dos sabores e práticas regulares de consumo de frutos.

Aqui segue uma pequena lista de frutos ainda não muito conhecidos da amazônia. A pupunha que fora do norte é conhecida mais pelo palmito de sua palmeira, tem sabor delicioso além de acesso popular, diferente do palmito que é gourmetizado e para ser extraído pressupõe a derrubada do tronco da planta. Outras frutas curiosas que conhecemos como Uxi, Turucibá, Rambutã e Biribá, acabaram não entrando nesta lista pois a vivência pedia mais atenção que os recursos tecnológicos.

A Pupunha é a única que se come cozida e excelente pra café da manhã, tem uma textura e sabores que podem parecer estranhos no começo, mas difícil parar de comer se entrar na rotina.

Tucumã, a iguaria mais babadeira da amazônia, este fruto é simplesmente demais! A maioria da população come ele em natura mesmo, descascando com a faca em meio a um papo. Também se come com pão, tapioca e fiquem chó, em Manaus tem até pizza disso. Desta forma trouxemos o cuscuz presente no cotidiano da zona da mata nordestina adicionando o incrível tucumã, pra começar o dia com o vigor do amarelo e aquela energia de óleo das palmeiras.

Umari, impossível resistir, presença garantida nos cafés da manhã, almoço e jantar, acabamos desenvolvendo uma receita base para este fruto tentando respeitar a premissa de não usar muita tecnologia, seja, eletrodomésticos ou o próprio fogo para consumo. Assim surgiu a umarinese, que consiste numa grande quantidade de poupa de mari com um pouco de água. Esta técnica pode render, tanto a marinese, quanto creme pra doces quando molho a depender da quantidade e mistura de líquidos que se coloca.

Mari-Mari ou Ingámari, comemos apenas in natura, refrescante, gelatinoso, com um doce crítico, que você encontra ao abrir um ingá de aproximadamente 80cm.

Bacaba, coletamos direto do pé junto com a macaxeira (sim lá tem macaxeira e mandioca e não são a mesma coisa) no sítio agroecológico de D. Sulamita. Descemos o rio Igapó Açu nos distraindo com estas sementes na boca in natura e guardando suas sementes é claro. O vinho de bacaba e muito consumido pela população local, sendo encontrado também nas feiras livres, obtido através de um processo de extração da polpa muito parecido com a do açaí.

Cupuaçu, comido fresquinho recém tirado do pé é a melhor combinação de doce-ácido quelônios amazônicosque pode existir.

A Castanha da amazônia, despensa comentários, aprendemos uma receita que compartilharemos aqui em breve de doce do seu leite. Quem nos passou foi D. Sulamita, uma senhora muito simpática residente da comunidade Igapó Açu e nos mostrou que o doce serve pra tudo, desde de presente pra dar uma agitada na criançada até para adoçar o café, chás e sucos.

A partir dessa variedade, enfatizamos que tanto nutricionalmente quanto eticamente, a floresta oferece possibilidades alimentícias que coloca em cheque a necessidade da caça predatória aos animais selvagens e a escravidão dos animais não humanos trazida pela colonização da terra e pela domesticação. Óbvio que há muito a ser trabalhado na propagação dos direitos dos animais no cotidiano e nos próprios projetos de conservação de espécies em risco, contudo não podemos esquecer que o conhecimento popular e ribeirinho muitas vezes podem ser aliados nessa empreitada, guiado por um afeto e ética já presente no dia dia de quem tem a convivência com os animais não humanos, sejam eles selvagens ou domesticados, uma realidade material, que entende-os também como sujeitos.

Três maneiras do Veganismo Negro desafiar a supremacia branca

Há certas coisas que as pessoas negras nos Estados Unidos chamam de “merda de gente branca1“. Você sabe, atividades predominantemente apreciadas por brancos. Isso muitas vezes inclui coisas como caça de tempestades2, BASE jumping3, hotyoga, brunch4 e confiar na polícia.

Muitos dirão que o veganismo também pertence a esta lista. Isto era o que eu costumava pensar, a hipótese de abandonar todos os produtos e subprodutos de animais é uma busca extra, bizarra e inacessível para a maioria de nós. Eu vi tantas pessoas veganas – brancas, é claro – me deixarem a impressão de que o veganismo é apenas uma dieta indulgente por aqueles com renda disponível. Elas me silenciavam tentando comparar a opressão animal não-humana com a escravidão e tentando envergonhar o consumo de carne com imagens gráficas de sofrimento animal.

Mas e se houver mais no veganismo do que isso?

Eu não sou vegano, mas fui levado a ler o Afro-ismo: Ensaios sobre Cultura, Feminismo e Veganismo Negro de Duas Irmãs por um amigo próximo (também não-vegano) que afirmou que o livro conceitua o veganismo de uma maneira que descentraliza a brancura e critica a intersecção do colonialismo com a raça e a animalidade.

Isso me fez pensar: e se o Veganismo Negro for bem sucedido onde as representações populares e brancocentradas da ética vegana, falharam, se tratando das análises das normas sociais opressivas ligadas à situação dos animais humanos e não humanos?Eu sempre assumi que o “Veganismo Negro” era apenas um veganismo branco experimentado e perpetrado por pessoas negras, e não um panorama para analisar várias opressões. Eu certamente nunca pensei em nada revolucionário. Vendo que Aphro-ism foi escrito por duas mulheres negras (Aph e Syl Ko) que se reconhecem defensoras dos direitos dos animais e ativistas anti-racistas, eu dei uma chance ao livro. Agora, estou repensando o modo como os vieses definidores de nossa sociedade criam padrões desumanizantes que não só me impactam como uma pessoa negra, mas também se estendem aos animais, define nossas opções de comida e empoderam uma indústria de alimentos racista.

Quero enfatizar que a libertação que as irmãs Ko preveem é menos sobre o consumo de carne e mais sobre a necessidade de reformular o racismo para incluir a relação entre o sentimento anti-negro e anti-animal, como princípios do patriarcado capitalista na supremacia branca. É este arranjo cultural que conceitua e justifica o consumo de carne nas sociedades patriarcais capitalistas da supremacia branca.

Dada esta análise distinta, aqui estão as três coisas principais que eu aprendi sobre o Veganismo Negro. Eu acho que o mundo inteiro precisa saber:

  1. O Veganismo Negro investiga a raiz e o alcance do pensamento colonial.

    Aph e Syl Ko trazem à frente o trabalho de escritores anticoloniais como Franz Fanon , Sylvia Wynter, María Lugones e Aimé Césaire para argumentar que a categoria animal também é uma invenção colonial imposta a animais humanos e não humanos. Em seu livro, as irmãs Ko exploram como as construções coloniais de compreender as desvantagens de animais não-humanos, também vão se infiltrando nas opressões humanas, particularmente a opressão racializada. Isso se relaciona com forma como pensamos sobre a raça ou o pensamento racial, o que leva ao ponto dois:

  2. O Veganismo Negro nos obriga a considerar as maneiras pelas quais a ideia de raça se estende além dos corpos humanos.

    As irmãs Ko argumentam que a ideia de raça abrange mais do que o discurso limitado das reflexões raciais sobre cor de pele, corpo humano e localização. Elas retratam o pensamento racial como uma ferramenta que alveja e distorce não só as pessoas, mas também as regiões, todos os membros do ambiente, conhecimento, linguagem e conceituação humana do tempo e do espaço em si. Interligando o pensamento racial e as ferramentas coloniais se compreende a animalidade.

    O que nos leva à poderosa interação do colonialismo e da raça no ponto três:

  3. O veganismo negro examina como “características animais” são negativamente atribuídas a animais não humanos e não brancos.

    As irmãs Ko argumentam que a animalidade é um conceito eurocêntrico que contribuiu para a opressão de qualquer grupo que se desvia do ideal da supremacia branca do Homo sapiens branco. Considere como as pessoas exigem sua humanidade justapondo seu valor superior imaginado com o status inferior assumido do animal. Tenho certeza de que todos dissemos, pensamos ou testemunhamos o sentimento ao longo das linhas de “Eu não sou um animal!” E “Não me trate como um cachorro! “

Esta linguagem se baseia casualmente numa ideia prescritiva que concede aos seres humanos (os seres “humanos direitos”5) um status superior aos considerados não humanos. O veganismo negro nos pede que examinemos os processos de pensamento socializados que consideram certas entidades aptas ao abuso, processos de pensamento que muitas pessoas, inclusive eu, simplesmente naturalizam.

Pensar no emprego de ideias hierarquizadas como “outros” ou “sub-humanos” reflete como o conceito de “brancura” construído social e politicamente é concebido e entendido como oposição a outras categorias na hierarquia racial. Semelhante a isto, a forma como a brancura se define demarcando uma separação dos “outros”, concebe e faz alusões associadas à “humanidade” e ao “humano” que da mesma forma, são organizadas em oposição ao “animal”.

Isto não quer dizer que as experiências dos negros e dos animais são as mesmas, mas a supremacia branca procura organizar sistemas sociais que saciam os interesses da brancura à custa de todos aqueles que se encontram fora dessa forma de categorização.

A supremacia branca dá uma maior consideração pelo valor intelectual, comportamental e inerente daqueles definidos como “brancos”.

A supremacia branca é uma ideologia sistêmica e sistemática assada no DNA social dos Estados Nacionais.

O veganismo negro está determinado a revelar como esta lógica eurocêntrica é reproduzida para criar a distinção de animais através de numerosos exemplos de tecnologias colonialistas impostas a diferentes sociedades. As irmãs Ko descobrem como as pessoas negras – como uma extensão da natureza racializada em ambos: humanes e animais – são animalizadas dentro de nossa sociedade como meio de explorar, violar e eliminar-nos.

O veganismo negro não é apenas o ato de pessoas negras plantar jardins e defender os direitos dos animais de uma maneira brancocentrada. O veganismo negro é um movimento sociopolítico que renuncia a definições de mundo brancocêntricas, enquanto rearticula as políticas de libertação negra incorporando animais não-humanos através da lente da animalidade e da raça.

Em outras palavras, o Veganismo Negro reexamina as normas sociais impostas a nós e chama a política que muitas de nós consideramos como garantidas.

Não estou dizendo que concordo com todos os argumentos e conclusões oferecidos por este livro. No entanto, aprender mais sobre o veganismo através de uma lente negra certamente desafiou meus pressupostos e a forma como vejo o mundo.

Isso me empurrou para reavaliar o que eu acho que conheço sobre a história e as maneiras pelas quais os padrões supremacistas brancos formaram a nossa cultura, a linguagem que usamos e o que se tornou meios legítimos de dieta e fontes alimentares.

Angela Davis me ensinou que “o radical simplesmente significa agarrar as raízes “. Se queremos realizar a libertação de todas as opressões tecidas na tapeçaria de nossa cultura, faz sentido desestabilizar modelos teóricos dominantes de opressão (e libertação) que podem ser incorporados nas origens colonialistas supremacistas brancas.

Ou, no mínimo, ouça o que as pessoas veganas negras têm a dizer sobre esses assuntos complexos. Quem sabe, ouvir talvez pode fazer com que mais de nós repensem nossas percepções.

Este texto é uma tradução livre da Dhuzati, publicado no Black Youth Project escrito por Sinceras Kirabo, coordenador de justiça social da American Humanist Association e colunista do The Humanist, HuffPost, Everyday Feminism, entre outros meios de comunicação.

Para nós a pertinência deste escrito é resgatar noções sobre Direitos Animais presente no Veganismo, enquanto movimento de emancipação, localizando os interesses da supremacia branca em sofisticar o especismo com a emergência do Veganismo Liberal, usado como ferramenta para a assimilação e mercantilização de discursos políticos radicais, já que seu foco se restringe ao consumo de produtos e criminalização de pessoas negras e pobres (e não com a libertação animal). Este debate portanto inicia não só uma intersecção do pensamento colonial sobre os conceitos de raça e animal, mas sobretudo nos alimenta a investigar as relações das culturas não civilizadas e não brancas com animais não humanos, visibilizando o respeito presente nestas interações como parte de nossas heranças ancestrais.

NOTAS

1 White people shit, no original N.T.

2 A perseguição por tempestade é uma atividade comum nos Estados Unidos realizada principalmente como um empreendimento criativo. É amplamente definida como a busca de qualquer condição climática severa, independentemente do motivo. Uma pessoa que persegue tempestades é conhecida como um caçador de tempestades. Ao testemunhar uma instabilidade climática o objetivo principal para a maioria dos caçadores é o prazer em ver fenômenos naturais e as metamorfoses das estruturas de nuvens, relâmpagos. N.T.

3 BASE jumping é uma atividade na qual a pessoa base-jumper salta de penhascos, prédios, antenas e até pontes. Para esse tipo de atividade se faz o uso de um paraquedas apropriado para aberturas em baixas altitudes. A sigla B.A.S.E provem de “Building Antenna Span & Earth”, ou em português, “Prédio, Antena, Ponte e Terra”. N.T.

4 É uma refeição de origem britânica que combina o café-da-manhã (breakfast) com o almoço (lunch). É normalmente realizada aos domingos, feriados ou datas comemorativas, quando toda a família se reúne entre 10 e as 14 horas (por tempo indeterminado) à volta da mesa.

5 Referencia a frase: “direitos humanos para humanos direitos” que tenta justificar a violência institucional contra corpos desprivilegiados e marginalizados