Três maneiras do Veganismo Negro desafiar a supremacia branca

Há certas coisas que as pessoas negras nos Estados Unidos chamam de “merda de gente branca1“. Você sabe, atividades predominantemente apreciadas por brancos. Isso muitas vezes inclui coisas como caça de tempestades2, BASE jumping3, hotyoga, brunch4 e confiar na polícia.

Muitos dirão que o veganismo também pertence a esta lista. Isto era o que eu costumava pensar, a hipótese de abandonar todos os produtos e subprodutos de animais é uma busca extra, bizarra e inacessível para a maioria de nós. Eu vi tantas pessoas veganas – brancas, é claro – me deixaram a impressão de que o veganismo é apenas uma dieta indulgente por aqueles com renda disponível. Elas me silenciavam tentando comparar a opressão animal não-humana com a escravidão e tentando envergonhar o consumo de carne com imagens gráficas de sofrimento animal.

Mas e se houver mais no veganismo do que isso?

Eu não sou vegana, mas fui levada a ler o Afro-ismo: Ensaios sobre Cultura, Feminismo e Veganismo Negro de Duas Irmãs por um amigo próximo (também um não-vegano) que afirmou que o livro conceitua o veganismo de uma maneira que descentraliza a brancura e critica a intersecção do colonialismo com a raça e a animalidade.

Isso me fez pensar: e se o Veganismo Negro for bem sucedido onde as representações populares e brancocentradas da ética vegana, falharam, se tratando das análises das normas sociais opressivas ligadas à situação dos animais humanos e não humanos?Eu sempre assumi que o “Veganismo Negro” era apenas um veganismo branco experimentado e perpetrado por pessoas negras, e não um panorama para analisar várias opressões. Eu certamente nunca pensei em nada revolucionário. Vendo que Aphro-ism foi escrito por duas mulheres negras (Aph e Syl Ko) que se reconhecem defensoras dos direitos dos animais e ativistas anti-racistas, eu dei uma chance ao livro. Agora, estou repensando o modo como os vieses definidores de nossa sociedade criam padrões desumanizantes que não só me impactam como uma pessoa negra, mas também se estendem aos animais, define nossas opções de comida e empoderam uma indústria de alimentos racista.

Quero enfatizar que a libertação que as irmãs Ko preveem é menos sobre o consumo de carne e mais sobre a necessidade de reformular o racismo para incluir a relação entre o sentimento anti-negro e anti-animal, como princípios do patriarcado capitalista na supremacia branca. É este arranjo cultural que conceitua e justifica o consumo de carne nas sociedades patriarcais capitalistas da supremacia branca.

Dada esta análise distinta, aqui estão as três coisas principais que eu aprendi sobre o Veganismo Negro. Eu acho que o mundo inteiro precisa saber:

  1. O Veganismo Negro investiga a raiz e o alcance do pensamento colonial.

    Aph e Syl Ko trazem à frente o trabalho de escritores anticoloniais como Franz Fanon , Sylvia Wynter, María Lugones e Aimé Césaire para argumentar que a categoria animal também é uma invenção colonial imposta a animais humanos e não humanos. Em seu livro, as irmãs Ko exploram como as construções coloniais de compreender as desvantagens de animais não-humanos, também vão se infiltrando nas opressões humanas, particularmente a opressão racializada. Isso se relaciona com forma como pensamos sobre a raça ou o pensamento racial, o que leva ao ponto dois:

  2. O Veganismo Negro nos obriga a considerar as maneiras pelas quais a ideia de raça se estende além dos corpos humanos.

    As irmãs Ko argumentam que a ideia de raça abrange mais do que o discurso limitado das reflexões raciais sobre cor de pele, corpo humano e localização. Elas retratam o pensamento racial como uma ferramenta que alveja e distorce não só as pessoas, mas também as regiões, todos os membros do ambiente, conhecimento, linguagem e conceituação humana do tempo e do espaço em si. Interligando o pensamento racial e as ferramentas coloniais se compreende a animalidade.

    O que nos leva à poderosa interação do colonialismo e da raça no ponto três:

  3. O veganismo negro examina como “características animais” são negativamente atribuídas a animais não humanos e não brancos.

    As irmãs Ko argumentam que a animalidade é um conceito eurocêntrico que contribuiu para a opressão de qualquer grupo que se desvia do ideal da supremacia branca do Homo sapiens branco. Considere como as pessoas exigem sua humanidade justapondo seu valor superior imaginado com o status inferior assumido do animal. Tenho certeza de que todos dissemos, pensamos ou testemunhamos o sentimento ao longo das linhas de “Eu não sou um animal!” E “Não me trate como um cachorro! “

Esta linguagem se baseia casualmente numa ideia prescritiva que concede aos seres humanos (os seres “humanos direitos”5) um status superior aos considerados não humanos. O veganismo negro nos pede que examinemos os processos de pensamento socializados que consideram certas entidades aptas ao abuso, processos de pensamento que muitas pessoas, inclusive eu, simplesmente naturalizam.

Pensar no emprego de ideias hierarquizadas como “outros” ou “sub-humanos” reflete como o conceito de “brancura” construído social e politicamente é concebido e entendido como oposição a outras categorias na hierarquia racial. Semelhante a isto, a forma como a brancura se define demarcando uma separação dos “outros”, concebe e faz alusões associadas à “humanidade” e ao “humano” que da mesma forma, são organizadas em oposição ao “animal”.

Isto não quer dizer que as experiências dos negros e dos animais são as mesmas, mas a supremacia branca procura organizar sistemas sociais que saciam os interesses da brancura à custa de todos aqueles que se encontram fora dessa forma de categorização.

A supremacia branca dá uma maior consideração pelo valor intelectual, comportamental e inerente daqueles definidos como “brancos”.

A supremacia branca é uma ideologia sistêmica e sistemática assada no DNA social dos Estados Nacionais.

O veganismo negro está determinado a revelar como esta lógica eurocêntrica é reproduzida para criar a distinção de animais através de numerosos exemplos de tecnologias colonialistas impostas a diferentes sociedades. As irmãs Ko descobrem como as pessoas negras – como uma extensão da natureza racializada em ambos: humanes e animais – são animalizadas dentro de nossa sociedade como meio de explorar, violar e eliminar-nos.

O veganismo negro não é apenas o ato de pessoas negras plantar jardins e defender os direitos dos animais de uma maneira brancocentrada. O veganismo negro é um movimento sociopolítico que renuncia a definições de mundo brancocêntricas, enquanto rearticula as políticas de libertação negra incorporando animais não-humanos através da lente da animalidade e da raça.

Em outras palavras, o Veganismo Negro reexamina as normas sociais impostas a nós e chama a política que muitas de nós consideramos como garantidas.

Não estou dizendo que concordo com todos os argumentos e conclusões oferecidos por este livro. No entanto, aprender mais sobre o veganismo através de uma lente negra certamente desafiou meus pressupostos e a forma como vejo o mundo.

Isso me empurrou para reavaliar o que eu acho que conheço sobre a história e as maneiras pelas quais os padrões supremacistas brancos formaram a nossa cultura, a linguagem que usamos e o que se tornou meios legítimos de dieta e fontes alimentares.

Angela Davis me ensinou que “o radical simplesmente significa agarrar as raízes “. Se queremos realizar a libertação de todas as opressões tecidas na tapeçaria de nossa cultura, faz sentido desestabilizar modelos teóricos dominantes de opressão (e libertação) que podem ser incorporados nas origens colonialistas supremacistas brancas.

Ou, no mínimo, ouça o que as pessoas veganas negras têm a dizer sobre esses assuntos complexos. Quem sabe, ouvir talvez pode fazer com que mais de nós repensem nossas percepções.

Este texto é uma tradução livre da Dhuzati, publicado no Black Youth Project escrito por Sinceras Kirabo, coordenadora de justiça social da American Humanist Association e colunista do The Humanist, HuffPost, Everyday Feminism, entre outros meios de comunicação.

Para nós a pertinência deste escrito é resgatar noções sobre Direitos Animais presente no Veganismo, enquanto movimento de emancipação, localizando os interesses da supremacia branca em sofisticar o especismo com a emergência do Veganismo Liberal, usado como ferramenta para a assimilação e mercantilização de discursos políticos radicais, já que seu foco se restringe ao consumo de produtos e criminalização de pessoas negras e pobres (e não com a libertação animal). Este debate portanto inicia não só uma intersecção do pensamento colonial sobre os conceitos de raça e animal, mas sobretudo nos alimenta a investigar as relações das culturas não civilizadas e não brancas com animais não humanos, visibilizando o respeito presente nestas interações como parte de nossas heranças ancestrais.

NOTAS

1 White people shit, no original N.T.

2 A perseguição por tempestade é uma atividade comum nos Estados Unidos realizada principalmente como um empreendimento criativo. É amplamente definida como a busca de qualquer condição climática severa, independentemente do motivo. Uma pessoa que persegue tempestades é conhecida como um caçador de tempestades. Ao testemunhar uma instabilidade climática o objetivo principal para a maioria dos caçadores é o prazer em ver fenômenos naturais e as metamorfoses das estruturas de nuvens, relâmpagos. N.T.

3 BASE jumping é uma atividade na qual a pessoa base-jumper salta de penhascos, prédios, antenas e até pontes. Para esse tipo de atividade se faz o uso de um paraquedas apropriado para aberturas em baixas altitudes. A sigla B.A.S.E provem de “Building Antenna Span & Earth”, ou em português, “Prédio, Antena, Ponte e Terra”. N.T.

4 É uma refeição de origem britânica que combina o café-da-manhã (breakfast) com o almoço (lunch). É normalmente realizada aos domingos, feriados ou datas comemorativas, quando toda a família se reúne entre 10 e as 14 horas (por tempo indeterminado) à volta da mesa.

5 Referencia a frase: “direitos humanos para humanos direitos” que tenta justificar a violência institucional contra corpos desprivilegiados e marginalizados

Solidariedade ao ataque sionista e islamofóbico contra o restaurante Papaya Verde

A página do restaurante Papaya Verde no Facebook foi atacada por uma onda conservadora e sionista, acusando o restaurante de promover antisemitismo por propagar adesivos com mensagens em prol à Palestina Livre e denunciar o genocídio cometido pelo Estado de Israel. O post de Roberto Grobman, que clama pelo ataque virtual ao restaurante, contém várias depreciações e calúnias associando a equipe do estabelecimento ao terrorismo e uma frase infeliz que enaltece o genocídio do povo palestino.

O sionismo é uma ficção política que defende um Estado judaíco no território que existiu o antigo Reino de Israel, colocando uma ambição fundamentada na crença religiosa da Terra Prometida, como algo superior a cultura e a vida das pessoas que habitavam Palestina. Contudo, devido as barbaridades cometidas pelos governos e a violenta expansão do Estado judaico, está emergindo uma crescente frente antisionista, protagonizada inclusive por judeus que não concordam com a política austera, liberal e militarista do Estado de Israel. Por isso se posicionar como antisionista não tem haver com ser antisemita, uma vez que isto é sobre a localização política de um grupo de judeus supremacistas e não contra o povo judeu como um todo.

Recentemente o deputado Jair Bolsonaro foi fortemanete aplaudido e chamado de “mito”, por um auditório com cerca de 500 pessoas, ao fazer afirmações preconceituosas e jocosas sobre negres, indígenas, mulheres, dissidentes sexuais, refugiades e integrantes de ONGs, em uma palestra no Clube Hebraica do Rio de Janeiro. Este fato, mostra que sionistas têm, ao longo do tempo, assumido os mesmos discursos e práticas políticas fascistas, baseada na eliminação da diferença, que resultou na perseguição, tortura e extermínio do povo judeu na metade do século XX. Para alguns judeus, o evento representou uma afronta à memória da comunidade judaica e ao jornalista refugiado Vladimir Herzorg, assassinado pela mesma ditadura que o parlamentar enaltece. A Confederação Israelita do Brasil também repudiou o evento.

A estratégia difamatória de pessoas com valores execráveis e de caráter hediondo merece combate a altura uma vez que seus princípios e sua política excludente não vitima apenas os palestinos e povo árabe, mas sim todas as minorias e marginalidades que lutam por justiça social e equidade em nome dos privilégios econômicos e políticos desta elite. Por isso prestamos nossa total solidariedade não apenas pelo restaurante promover o vegetarianismo e a cultura palestina mas sobretudo por sermos radicalmente contrárias ao projeto islamofóbico, liberal e supremacista promovido pelos sionistas e propagado em Pernambuco, entre outros, pelo professor da UFPE Rodrigo Jungmann e Raniery Zarchai, figuras declaradamente aliadas do deputado Jair Bolsonaro e do filósofo Olavo de Carvalho.

#solidariedadepalestina
#freepalestina

MoNSTRuoSas: Cardápio antiespecista e sexualidades monstras

Nesta sexta inicia a MoNSTRuoSaS, com grande parte de sua programação na Casa Lilás da Dhuzati, em Dois Irmãos, recebendo a La Gorda Vegana numa excitante troca de experiências sexodissidentes antiespecistas.

As 17h tem o lançamento do livro La Cerda Punk – Ensaios de um feminismo gordo, lésbico, antiespecista e anticapitalista com Missogina, anarcofeminista gorda, lesbica e vegana. O livro trás reflexões sobre os vínculos da heteronorma e o especismo, colonialidade, gordofobia, feminilidade não hegemônica, pornografia dissidente, entre outros temas radicais de questionamento antisistêmico.

As 19h inicia a MoNSTRA – Mostra Nordestina de Sexualidades e Travestilidades em Resistência no Audiovisual, iniciativa fruto da articulação da Distro Dysca e Coletivo Coiote com a produtoda mexicana Filmaralho e o festival peruano Pornífero. Em perspectiva anarquista, a mostra utiliza a arte como ferramenta de contestação às culturas hegemônicas de sexualidade, gênero, abordando vozes periféricas às indústrias da arte e do audiovisual e reunindo produções independentes do Brasil e América Latina.

O cardápio da noite é assinado pela La Gorda Vegana e Dhuzati e repleto de novidades com Esfixota, esfihas em formato xoxota com recheios de Choclo um prato chileno a base de milho e manjericão; e Berinjela temperada com cenoura e cebola além das Cebolas empanadas com acarajé e falafel e Pão de Jaca, recheados com queijo de gergelim. E de sobremesa um Bolo Pelado de prestígio.

O Bar ainda conta com cerveja sem milho transgênico, cachaças artesanais e sucos de frutas coletadas da mata e recicladas. Durante todo o evento teremos banquinhas com zines, materiais artesanais e brechó.

A organização do evento lembra que este evento é voltado para o encontro e fortalecimento das sexualidades dissidentes, portanto homens cisheterossexuais não são bem vindos, sendo suas presenças inconvenientes a esta agitação política sexodissidente.

Africalimente-se: Culinária Vegetariana de Inspiração Ancestral

Firmando nosso axé na emancipação alimentar, a Dhuzati apresenta uma ação que intersecciona o antiespecismo – através da culinária vegetariana estrita – e o antirracismo – através do resgate histórico da culinária afro-brasileira e da investigação da culinária africana. Muito mais uma ação direta que um evento, o AFRICALIMENTE-SE traz o protagonismo negro para a construção de um veganismo que possa unir vidas humanas e não humanas contra o antropocentrismo europeu através da prática de uma culinária criativa e combativa.

Nesta segunda edição, recebemos para inebriar nossos pratos com sua voz negra e radiante a cantora Aninha Martins com Jonatas Onofre e soundlounge de Sarita de Gzuis. Aninha é letrista e intérprete, daquelas artistas que para receber o título de ‘nova voz da MPB’ ou ‘diva’, lhe falta apenas a visibilidade merecida. Já Sarita é dj e performer paraense, filha de tacacazeira, que enfrenta com irreverência a luta cotidiana de uma sociedade opressora, transfóbica e intolerante.

Aninha Martins, é dona de vocais fortes e sonoridade marcante, costuma surpreender seu público com performances viscerais.

Sarita de Gzuis tem o trabalho como condição e a organização como alternativa contra os ataques daqueles que exploram!

Construíndo um afroveganismo que tem muito o que aprender a cerca de respeito aos animais não humanos com os cultos afrobrasileiros, e reconhecendo a experiência prática da  culinária norte-africana com suas infinitas criações vegetarianas, nosso objetivo, torna-se fazer o encontro de culturas produzidas como menos racionalizadas e perigosas pelo eurocentrismo branco moderno, resgatando conhecimentos alimentares e utilizando ingredientes parte da cultura alimentar iorubá, árabe e etíope, como coentro, fava, cominho, feijão macassar, pimenta e amendoim, que não por acaso, são presente no cotidiano nordestino.

No nosso cardápio Acarajé com Vatapá (10$) e Isu Rogodo com Chermoula (10$) de petiscos, com opção de meia porção. Efó acompanhando Xinxim de Jaca (15$) ou Shalan Ful (15) como pratos principais e Oguedê, que nada mais é que banana frita com canela, de sobremesa (4$), além de sucos de frutas orgânicas e cerveja puro malte.

Povos da África, desde os tempos áureos das grandes civilizações até os dias modernos reféns da pobreza, da exploração industrial e do neocolonialismo tiveram uma dieta em grande parte vegetariana que dependia fortemente de grãos, vegetais, frutas e legumes. Uma das leguminosas mais populares na dieta africana é a fava que durante muito tempo foi provavelmente uma das principais fontes de proteína para povos desta região. É valorizando sabores e conhecimentos ancestrais, desindustrializando e desprofissionalizando a culinária, entendendo-a como um ritual caseiro, amistoso, coletivo e sem chefes que nossa proposta de descolonização alimentar te convida à africalimentar-se e sentir neste sábado, 29/04.

SERVIÇO:
Africalimente-se: culinária vegetariana de inspiração ancestral
Dhuzati Coletiva Antiespecista Artesanal
Rua da Biblioteca da UFRPE, Casa Lilás
Dia 29 de Abril, a partir das 19h.

A crítica antiespecista não é sobre consumo, é sobre a relação de poder entre animais humanos e não humanos

A localização de classes dentro do veganismo é pertinente, assim como é inegável reconhecer que muitas vegetarianas adotam discursos que menosprezam pessoas com base numa cultura elitista e práticas micofascistas, isso é cruel e opressor. Porém, usar de desonestidade e fazer apontamentos anti-elitistas, ignorando a cultura carnista, especista e o não reconhecimento dos animais como seres com vontade própria: a de não morrer, por exemplo, bebe da mesma fonte do principio de anulação das diferenças! Porque ao falar de privilégio em escolher o que comer, também não falamos do privilégio em poder escolher não morrer? Seria, mais uma vez, a vida dos animais menos importante os interesses humanos?

Acesso a informação é sim um grande problema dentro da cultura especista, mas não é só isso, nossa apatia em relação a vida dos animais e as violências que cometemos contra não humanos em geral não é visto como algo importante, fomos ensinadas a naturalizar as opressões. Não se come carne apenas pra “encher o bucho”, se come carne pq a cultura carnista diz que alguns animais podem ser assassinados para “encher o bucho”. Uma alimentação sem ingredientes de origem animal é infinitamente mais em conta. Feijão, arroz, batata doce, macaxeira, farinha, banana comprida, jaca, inhame, amendoim, são baratos, saciam e são de fácil acesso para a maioria das pessoas. A cultura que impõe a carne como base para comer com todas essas coisas e a mesma que sequestrou os conhecimentos populares a cerca de uma alimentação mais autônoma. “Vou comer puro?” essa frase muito comum no nordeste do Brasil, reflete desejo por cadáver e não fome por si só.

arroz, macarrão, alface, cenoura e batata cozidas, couve e tomatinho

feijão preto, arroz, vinagrete, purê de jerimum e farofa

feijão macassar, vinagrete, arroz e casca de banana refogadas

A dificuldade/limitação na rotina pra ressignificar práticas tão importantes quanto a alimentação, principalmente pra mães solteiras, em sua maioria negras, e pessoas confinadas em trabalhos precarizados existe, mas que tal falar sobre a cervejada com sarapatel? E o galeto acompanhado de arroz, feijão, maionese e farofa? E a tripa assada, tira gosto da cachaça? E as buchadas que levam bastante tempo pra serem preparadas? E o “eu sou carnívoro gosto de carne mesmo”? Muita gente que usa a pobreza como exemplo pra não repensar os próprios atos, têm como optar sim, a não ser que elas sejam aquelas da rua sem condições de negar comida de doação, muitas vezes comendo papelão puro, sem ser escondido na carne, ou mesmo as que cheiram cola pra enganar a fome. Estamos ligadas que toda a informação sobre comida vegana que vocês têm tá lá no cartaz da gourmeteria com uma versão de hambúrguer de cogumelos albinos da melanésia colhidos por duendes tailandeses virgens em ano bissexto. Veganismo é sobre ética política, não sobre poder de consumo e dieta, da mesma forma que existe salsicha e carne moída com papelão, existe carne de vitela, foie gras e caviar, não esqueçam disso.

Práticas populares não é só comprar sardinha, salsicha, mortadela e fiambre, é também comer feijão, farinha e banana e catar vegetais na feira que vão pro lixo, porque a produção industrial de alimentos se baseia no desperdício, eu to falando daqueles mesmos que muitos de vocês escolhem não comer porque tem nojinho. Isso garante uma enorme quantidade de alimentos vegetais sem absolutamente gastar nenhum dinheiro e é muito mais saudável e ético do que carne podre, papelão e cabeça de porco. Enquanto vocês passam pano pra cultura carnista e falam estupidamente sobre escolher o que comer, que tal escolhermos resgatar uma parte do conhecimento popular, campesino, quilombola e indígena apagado pelo agronegócio sobre os matos que nascem na fresta dos asfaltos, das construções e nos terrenos baldios que tem potencialidade alimentícia? É importante e urgente apontar elitismo e racismo dentro do vegetarianismo e ir contra vegetarianes liberais universalistas que acreditam ser melhores e mais justos que a massa pobre e ignorante, mas reduzir a crítica antiespecista à esta experiência de classe é oportunista e cúmplice dos efeitos da alienação industrial.

vegetais reciclados, descartados por feirantes com destino no lixo.

Os carnistas que tem poder de escolha e que mesmo assim buscam justificar suas práticas especistas utilizando os pobres como argumento, não lembram deles quando financiam a pecuária, por exemplo. Para esta atividade manter-se, inúmeros territórios sagrados indígenas são usurpados, invadidos e expropriados, exterminando animais silvestres e empurrando pessoas para a miséria. Cerca de 70% da superfície agrícola pertence à criação de animais e grande parte dos alimentos super nutritivos como arroz, milho, soja, aveia e o trigo não são usados para alimentar pessoas que estão em condição de miséria, morrendo de inanição sim para alimentar e engordar animais.

Pobres que não tem água na torneira também não são invisíveis ao fato de mais da metade da água potável do mundo ser destinada à pecuária. 15 mil litros de água pra produzir apenas 1kg de carne. Qual carnista lembra da pobreza nessas horas? Se lembrasse e se importasse de fato, deixaria de ser carnista, pois o agronegócio além de racista é indiscutivelmente violento com pobres. Usam pobre como escudo, mas bem, quem come exclusivamente vegetais é que é elitista e que pode escolher o que comer.

* Este texto contém contribuições de Talu Vieira e Mel Bezerra com revisão da Dhuzati