MoNSTRuoSas: Cardápio antiespecista e sexualidades monstras

Nesta sexta inicia a MoNSTRuoSaS, com grande parte de sua programação na Casa Lilás da Dhuzati, em Dois Irmãos, recebendo a La Gorda Vegana numa excitante troca de experiências sexodissidentes antiespecistas.

As 17h tem o lançamento do livro La Cerda Punk – Ensaios de um feminismo gordo, lésbico, antiespecista e anticapitalista com Missogina, anarcofeminista gorda, lesbica e vegana. O livro trás reflexões sobre os vínculos da heteronorma e o especismo, colonialidade, gordofobia, feminilidade não hegemônica, pornografia dissidente, entre outros temas radicais de questionamento antisistêmico.

As 19h inicia a MoNSTRA – Mostra Nordestina de Sexualidades e Travestilidades em Resistência no Audiovisual, iniciativa fruto da articulação da Distro Dysca e Coletivo Coiote com a produtoda mexicana Filmaralho e o festival peruano Pornífero. Em perspectiva anarquista, a mostra utiliza a arte como ferramenta de contestação às culturas hegemônicas de sexualidade, gênero, abordando vozes periféricas às indústrias da arte e do audiovisual e reunindo produções independentes do Brasil e América Latina.

O cardápio da noite é assinado pela La Gorda Vegana e Dhuzati e repleto de novidades com Esfixota, esfihas em formato xoxota com recheios de Choclo um prato chileno a base de milho e manjericão; e Berinjela temperada com cenoura e cebola além das Cebolas empanadas com acarajé e falafel e Pão de Jaca, recheados com queijo de gergelim. E de sobremesa um Bolo Pelado de prestígio.

O Bar ainda conta com cerveja sem milho transgênico, cachaças artesanais e sucos de frutas coletadas da mata e recicladas. Durante todo o evento teremos banquinhas com zines, materiais artesanais e brechó.

A organização do evento lembra que este evento é voltado para o encontro e fortalecimento das sexualidades dissidentes, portanto homens cisheterossexuais não são bem vindos, sendo suas presenças inconvenientes a esta agitação política sexodissidente.

Africalimente-se: Culinária Vegetariana de Inspiração Ancestral

Firmando nosso axé na emancipação alimentar, a Dhuzati apresenta uma ação que intersecciona o antiespecismo – através da culinária vegetariana estrita – e o antirracismo – através do resgate histórico da culinária afro-brasileira e da investigação da culinária africana. Muito mais uma ação direta que um evento, o AFRICALIMENTE-SE traz o protagonismo negro para a construção de um veganismo que possa unir vidas humanas e não humanas contra o antropocentrismo europeu através da prática de uma culinária criativa e combativa.

Nesta segunda edição, recebemos para inebriar nossos pratos com sua voz negra e radiante a cantora Aninha Martins com Jonatas Onofre e soundlounge de Sarita de Gzuis. Aninha é letrista e intérprete, daquelas artistas que para receber o título de ‘nova voz da MPB’ ou ‘diva’, lhe falta apenas a visibilidade merecida. Já Sarita é dj e performer paraense, filha de tacacazeira, que enfrenta com irreverência a luta cotidiana de uma sociedade opressora, transfóbica e intolerante.

Aninha Martins, é dona de vocais fortes e sonoridade marcante, costuma surpreender seu público com performances viscerais.

Sarita de Gzuis tem o trabalho como condição e a organização como alternativa contra os ataques daqueles que exploram!

Construíndo um afroveganismo que tem muito o que aprender a cerca de respeito aos animais não humanos com os cultos afrobrasileiros, e reconhecendo a experiência prática da  culinária norte-africana com suas infinitas criações vegetarianas, nosso objetivo, torna-se fazer o encontro de culturas produzidas como menos racionalizadas e perigosas pelo eurocentrismo branco moderno, resgatando conhecimentos alimentares e utilizando ingredientes parte da cultura alimentar iorubá, árabe e etíope, como coentro, fava, cominho, feijão macassar, pimenta e amendoim, que não por acaso, são presente no cotidiano nordestino.

No nosso cardápio Acarajé com Vatapá (10$) e Isu Rogodo com Chermoula (10$) de petiscos, com opção de meia porção. Efó acompanhando Xinxim de Jaca (15$) ou Shalan Ful (15) como pratos principais e Oguedê, que nada mais é que banana frita com canela, de sobremesa (4$), além de sucos de frutas orgânicas e cerveja puro malte.

Povos da África, desde os tempos áureos das grandes civilizações até os dias modernos reféns da pobreza, da exploração industrial e do neocolonialismo tiveram uma dieta em grande parte vegetariana que dependia fortemente de grãos, vegetais, frutas e legumes. Uma das leguminosas mais populares na dieta africana é a fava que durante muito tempo foi provavelmente uma das principais fontes de proteína para povos desta região. É valorizando sabores e conhecimentos ancestrais, desindustrializando e desprofissionalizando a culinária, entendendo-a como um ritual caseiro, amistoso, coletivo e sem chefes que nossa proposta de descolonização alimentar te convida à africalimentar-se e sentir neste sábado, 29/04.

SERVIÇO:
Africalimente-se: culinária vegetariana de inspiração ancestral
Dhuzati Coletiva Antiespecista Artesanal
Rua da Biblioteca da UFRPE, Casa Lilás
Dia 29 de Abril, a partir das 19h.

A crítica antiespecista não é sobre consumo, é sobre a relação de poder entre animais humanos e não humanos

A localização de classes dentro do veganismo é pertinente, assim como é inegável reconhecer que muitas vegetarianas adotam discursos que menosprezam pessoas com base numa cultura elitista e práticas micofascistas, isso é cruel e opressor. Porém, usar de desonestidade e fazer apontamentos anti-elitistas, ignorando a cultura carnista, especista e o não reconhecimento dos animais como seres com vontade própria: a de não morrer, por exemplo, bebe da mesma fonte do principio de anulação das diferenças! Porque ao falar de privilégio em escolher o que comer, também não falamos do privilégio em poder escolher não morrer? Seria, mais uma vez, a vida dos animais menos importante os interesses humanos?

Acesso a informação é sim um grande problema dentro da cultura especista, mas não é só isso, nossa apatia em relação a vida dos animais e as violências que cometemos contra não humanos em geral não é visto como algo importante, fomos ensinadas a naturalizar as opressões. Não se come carne apenas pra “encher o bucho”, se come carne pq a cultura carnista diz que alguns animais podem ser assassinados para “encher o bucho”. Uma alimentação sem ingredientes de origem animal é infinitamente mais em conta. Feijão, arroz, batata doce, macaxeira, farinha, banana comprida, jaca, inhame, amendoim, são baratos, saciam e são de fácil acesso para a maioria das pessoas. A cultura que impõe a carne como base para comer com todas essas coisas e a mesma que sequestrou os conhecimentos populares a cerca de uma alimentação mais autônoma. “Vou comer puro?” essa frase muito comum no nordeste do Brasil, reflete desejo por cadáver e não fome por si só.

arroz, macarrão, alface, cenoura e batata cozidas, couve e tomatinho

feijão preto, arroz, vinagrete, purê de jerimum e farofa

feijão macassar, vinagrete, arroz e casca de banana refogadas

A dificuldade/limitação na rotina pra ressignificar práticas tão importantes quanto a alimentação, principalmente pra mães solteiras, em sua maioria negras, e pessoas confinadas em trabalhos precarizados existe, mas que tal falar sobre a cervejada com sarapatel? E o galeto acompanhado de arroz, feijão, maionese e farofa? E a tripa assada, tira gosto da cachaça? E as buchadas que levam bastante tempo pra serem preparadas? E o “eu sou carnívoro gosto de carne mesmo”? Muita gente que usa a pobreza como exemplo pra não repensar os próprios atos, têm como optar sim, a não ser que elas sejam aquelas da rua sem condições de negar comida de doação, muitas vezes comendo papelão puro, sem ser escondido na carne, ou mesmo as que cheiram cola pra enganar a fome. Estamos ligadas que toda a informação sobre comida vegana que vocês têm tá lá no cartaz da gourmeteria com uma versão de hambúrguer de cogumelos albinos da melanésia colhidos por duendes tailandeses virgens em ano bissexto. Veganismo é sobre ética política, não sobre poder de consumo e dieta, da mesma forma que existe salsicha e carne moída com papelão, existe carne de vitela, foie gras e caviar, não esqueçam disso.

Práticas populares não é só comprar sardinha, salsicha, mortadela e fiambre, é também comer feijão, farinha e banana e catar vegetais na feira que vão pro lixo, porque a produção industrial de alimentos se baseia no desperdício, eu to falando daqueles mesmos que muitos de vocês escolhem não comer porque tem nojinho. Isso garante uma enorme quantidade de alimentos vegetais sem absolutamente gastar nenhum dinheiro e é muito mais saudável e ético do que carne podre, papelão e cabeça de porco. Enquanto vocês passam pano pra cultura carnista e falam estupidamente sobre escolher o que comer, que tal escolhermos resgatar uma parte do conhecimento popular, campesino, quilombola e indígena apagado pelo agronegócio sobre os matos que nascem na fresta dos asfaltos, das construções e nos terrenos baldios que tem potencialidade alimentícia? É importante e urgente apontar elitismo e racismo dentro do vegetarianismo e ir contra vegetarianes liberais universalistas que acreditam ser melhores e mais justos que a massa pobre e ignorante, mas reduzir a crítica antiespecista à esta experiência de classe é oportunista e cúmplice dos efeitos da alienação industrial.

vegetais reciclados, descartados por feirantes com destino no lixo.

Os carnistas que tem poder de escolha e que mesmo assim buscam justificar suas práticas especistas utilizando os pobres como argumento, não lembram deles quando financiam a pecuária, por exemplo. Para esta atividade manter-se, inúmeros territórios sagrados indígenas são usurpados, invadidos e expropriados, exterminando animais silvestres e empurrando pessoas para a miséria. Cerca de 70% da superfície agrícola pertence à criação de animais e grande parte dos alimentos super nutritivos como arroz, milho, soja, aveia e o trigo não são usados para alimentar pessoas que estão em condição de miséria, morrendo de inanição sim para alimentar e engordar animais.

Pobres que não tem água na torneira também não são invisíveis ao fato de mais da metade da água potável do mundo ser destinada à pecuária. 15 mil litros de água pra produzir apenas 1kg de carne. Qual carnista lembra da pobreza nessas horas? Se lembrasse e se importasse de fato, deixaria de ser carnista, pois o agronegócio além de racista é indiscutivelmente violento com pobres. Usam pobre como escudo, mas bem, quem come exclusivamente vegetais é que é elitista e que pode escolher o que comer.

* Este texto contém contribuições de Talu Vieira e Mel Bezerra com revisão da Dhuzati

NÃO MATE ANFISBÊNIAS

Nascida e criada espontaneamente nos canteiros de casa, essa espécie de réptil alimenta-se de pequenos bichinhos como vermes e insetos – cupins, larvas, lagartinhas e, claro, as temidas formigas roçadeiras. Como? Considerada uma exímia escavadora, a espécie utiliza a cabeça em forma-de-pá para abrir verdadeiras galerias que vão de encontro aos formigueiros das inimigas nº 1 de todx jardineirx: as formigas de roça ou cortadeira. Deduz-se que esses répteis têm um papel ambiental tão importante quanto o das minhocas, pois, ao cavar a terra do seu quintal ou jardim, contribuem para a penetração da água e do ar no mesmo, favorecendo o desenvolvimento da vegetação.

Portanto, se você encontrar uma anfisbênia, (cobra de duas cabeças existe, e não é ela) em seu jardim, não mate: grite, corra para a montanha mais próxima ou suba no lugar mais alto. Isso ajuda a aliviar a tensão. Desmaios não são seguros. Brincadeiras à parte, ao contrário do que muitos imaginam, a anfisbênia não é uma cobra nem possui duas cabeças – tem só uma mesmo. Não é cega – possui dois pequenos olhos cobertos por escamas – e tampouco é venenosa. Ela morde somente se provocada. Seu instinto de defesa é enrolar-se ou debater-se. Em alguns casos ela perde parte da cauda – fato que acontece uma única vez pois a mesma não se regenera como a lagartixa.

A semelhança externa com as serpentes, aliada à crença popular (incorreta) de que são perigosos, faz com que esses animais inofensivos sejam sumariamente exterminados quando emergem de suas galerias encharcadas após a chuva, ou quando são trazidos a tona pela enxada ou arado. Com informações de Allyne Dayse Macedo

Higiene – Limpeza e Lavagem Cerebral

29ae00“A característica notável restante de “Che” é a sua sujeira. Ele odeia se lavar e nunca o faz. Ele é imundo, mesmo pelo padrão de limpeza mais baixo comum entre as forças de Castro na Sierra Maestra. De vez em quando, “Che” leva alguns de seus homens a um riacho ou açude, para que ele possam se lavar. Nessas ocasiões, “Che” nunca se lava ou a suas roupas, mas senta na margem e assiste os outros. Ele é realmente excepcionalmente e espetacularmente sujo.”

― descrição ofensiva de Ernesto “Che” Guevara do dossiê de 1958 da C.I.A.

Até nos círculos alternativos mais radicais, é surpreendente como ouvimos alguém reclamar de pessoas que eles chamam de “hippies” ou “punks sujos”. “Esses punks sujos vieram aqui e deixaram o lugar todo fedendo”, costumam dizer. Que crime tão grave essas pessoas cometeram para serem tão vilificadas? Eles têm um orientação distinta da nossa na questão da “limpeza”.

hip_bath_victorian_woman_t-1A propósito, de onde vêm nossas ideias e valores da chamada “limpeza”? A civilização ocidental tem uma longo histórico de associar limpeza a bondade e ao mérito, melhor resumida pela velha expressão “a limpeza está próxima da Divindade”. Em peças de teatro da Grécia antiga, pessoas más e espíritos ― as Fúrias, por exemplo ― eram frequentemente descritos como sujos. As Fúrias eram sujas, velhas e fêmeas, exatamente o oposto de como o escritor que as descreveu se via; a sua sujeira, entre outras coisas, as identificava como excluídas ― como estranhas, animais, desumanas. Com o tempo, a limpeza se tornou uma medida com a qual os mais ricos se separavam dos pobres. Aqueles que possuíam riquezas e poder necessários para se permitir ficar dentro de casa, inativos, faziam graça dos camponeses e viajantes cujos estilos de vida envolviam sujar suas mãos e seus corpos. Através da nossa história, podemos ver que a limpeza foi usada como um padrão de valor por aqueles com poder para atribuir status social ― e logo, os “próximos a Deus”, os auto-proclamados sagrados que ficavam sobre o resto de nós na sociedade hierárquica, proclamaram que a sua limpeza, comprada com o esforço dos outros forçados a trabalhar para eles, era uma medida de sua “Divindade” e superioridade. Até hoje, aceitamos esta crença tradicional: que ser “limpo” de acordo com as normas sociais é desejável por si só.1940-10-20-gessy-sabonete-rainha-coroa2Deve ter ficado claro através da história de nossas idéias sobre “limpeza” que qualquer crítico aos valores aceitados em grande escala, qualquer radical ou roqueiro punk, deve suspeitar muito de grandes valores atribuídos a ficar “limpo” de acordo com os padrões tradicionais. Além disso, o que exatamente significa “limpo”?

Hoje em dia, a limpeza é mais definida por corporações vendendo “produzos de limpeza” do que por qualquer outro motivo. É importante manter isto em mente. Certamente, a maioria destes produtos tem uma capacidade fantástica de atravessar o pó e a sujeira naturais ― mas remover a poeira e sujeira naturais com químicos sintéticos constitui necessariamente na única forma aceitável de sanitização? Ficamos pelo menos tão assustades por estes produtos artificiais fabricados, como ficamos com um pouco de poeira, lama, suor, ou (deus nos livre!) uma mancha de comida ou sangue nas nossas camisetas? É importante saber de onde vem a “sujeira” e do que ela é feita!

A idéia de que vale a pena usar químico34e4bb41d288d10212a5fd53babff230s (quer sejam desodorantes, detergentes ou xampus) para erradicar sujeira orgânica também possui algumas implicações assustadoras. Primeiro, ela apóia a velha superstição cristã de que o corpo biológico é vergonhoso e deve ser escondido ― que nossos corpos e nossa existência como animais no mundo físico são intrinsecamente revoltantes e pecaminosas. Estes valores têm sido usados para nos manter inseguros e envergonhados, e, por conseqüência, à mercê dos padres e outras autoridades que nos dizem como ficar “puros”: antes, nos submetendo à sua divina negação do ser, e agora, gastando boa parte do nosso dinheiro em vários produtos de “higiene” que eles querem nos vender. E também, enquanto o capitalismo transforma todo o mundo de orgânico (florestas, pântanos, desertos, rios) para o inorgânico (cidades de aço e concreto, bairrossoap-ad de asfalto e gramados aparados, terras que foram limpas de todos seus recursos naturais, lixões), a idéia de que tem algo que é mais valioso em químicos sintéticos do que na sujeira natural implica que essa transformação possa ser uma boa coisa… e conseqüentemente justifica implicitamente a destruição do nosso planeta motivada pelo lucro.

Na verdade, estas corporações estão muito menos preocupadas com a nossa saúde e limpeza do que estão em nos vender seus produtos. Elas se utilizam do alto valor que damos à higiene para nos vender todo tipo de produto em seu nome. Quem sabe quais são os efeitos reais, de longo prazo desses produtos à nossa saúde? Sabemos que coelhos são violentados e expostos a deterioração de suas visões para que xampus e outros produtos de limpeza possam ser considerados seguros a seres humanos, por exemplo? Eles não se importam com nada disso. Se nós algum dia ficarmos doentes por usar seus detergentes especiais e xampus de alta tecnologia, ele podem nos vender outro produto ― remédios ― e manter as rodas da economia capitalista girando. E a vergonha de nossos corpos (pocoelho_testes_001r serem produtores de suor e outros fluídos naturais que consideramos “sujos”) que eles capitalizam para vender outros produtos que dependem da nossa insegurança: produtos para dietas, produtos para exercícios físicos, roupas da moda, etc. Quando nós aceitamos a definição de “limpeza” do capitalismo estamos aceitando a sua dominação econômica sobre nossas vidas.

Mesmo que elas concordem sobre a natureza questionável dos produtos de higiene de hoje, a maioria das pessoas ainda argumentariam que a higiene ainda é mais saudável que a sujeira. Até algum ponto isto é verdade ― provavelmente é uma boa ideia lavar o seu pé se você pisar em cocô. Mas além de casos óbvios como esse, existem milhares de padrões diferentes do que é limpo e o que é sujo ao redor do mundo; se você observar diferentes sociedades e civilizações, você vai se deparar com práticas de saúde que parecem suicidas pelos nossos padrões sanitários. E ainda assim, estas pessoas sobrevivem tão bem quanto nós. Povos na África alguns séculos atrás viviam confortavelmente num ambiente natural que destruiu muitos dos exploradores ocidentais mais asseados e polidos que vieram ao seu continente. Seres humanos podem se adaptar a uma grande variedade de ambientes e situações, e parece que a questão sobre quais tipos de sanitização são saudáveis é, pelo menos, tanto uma questão de convenção como de regras gravadas biologicamente. Tente violar alguma das regras do “bom senso” da higiene Ocidental alguma vez: você descobrirá que tirar comida do lixo e passar algumas semanas sem tomar banho não é tão perigoso ou difícil quanto lhe ensinaram.

abrir-numa-duplaTalvez a questão mais importante quando tratamos do valor pouco comum que damos à “limpeza” tradicional é o que perdemos ao fazer isso. Antigamente, antes de disfarçarmos nossos odores naturais com químicos, cada um tinha seu cheiro único. Esses cheiros nos atraíam uns aos outros e nos ligava emocionalmente através da memória e associação. Agora, se você tem associações positivas com o cheiro de alguém que você gosta, provavelmente é o seu perfume (idêntico ao perfume de milhares) que você gosta, não seu cheiro pessoal. E os feromônios naturais com os quais antes nos comunicávamos uns com os outros, e que jogavam uma parte importante na nossa sexualidade, foram agora completamente abafados por produtos químicos padronizados. Nós não sabemos mais o que é ser um ser humano natural,2c88ff8659c9dc6ee5de0f7aa9d515e9 cheirar como um animal de verdade. Quem sabe o quanto perdemos por causa disto? Aqueles que acham nojeira gostar do cheiro e do gosto das pessoas quando não se toma banho ou passa produtos sintéticos no corpo, quando se cheira como um ser humano de verdade, são provavelmente os mesmos que tremem ao pensar em arrancar um vegetal do solo e comê-lo ao invés do lanche feito pelo homem e enrolado em plástico que todos crescemos comendo. Nós ficamos tão acostumados com a nossa existência domesticada, projetada que nós nem sabemos o que estamos perdendo.

Então tente ter a mente mais aberta quando se tratar dos “sujinhos”. Talvez eles apenas cheirem mal porque você nunca teve a chance de descobrir como cheiram os seres humanos de verdade; talvez tenha algo de valor em “não se lavar” que você ainda não percebeu. A moral desta estória é a moral de toda estória anarquista: aceite somente as regras e valores que fazem sentido para você. Descubra o que é certo para você e não deixe ninguém lhe dizer que não ― mas também, se esforce para entender o que motiva os outros, e avaliar as suas ações pelos seus próprios padrões, e não de acordo com alguma norma padronizada.

capitalistasdesoTexto retirado do livro Dias de Guerra, Noites de Amor
Ed. Deriva, 2010
Tradução: Protopia
Disponível na web pelo link: http://pt-br.protopia.wikia.com/wiki/Dias_de_Guerra,_Noites_de_Amor