Incríveis molhos para massa

Apesar dos vegetais nos fornecerem uma infinita possibilidade de elaborar molhos de diferentes texturas, os molhos mais comuns e conhecidos da cultura alimentar ocidental se baseia em adicionar ingredientes de origem animal, para obter sabor, odor e consistência. Quem é vegano sabe muito bem que é possível substituir alguns ingredientes e preparar molhos com um sabor bem similar aos tradicionais. Mas o que ainda não é muito bem difundido é o conhecimento de que vegetais usar para dar aquela textura mais encorpada ou mesmo um sabor inconfundível.

Também é importante lembrar, que uma alimentação que presa pela liberdade enquanto principio, deve questionar o uso de produtos industrializados com adição de conservantes, químicos e realçadores de sabor. Afinal a proposta de libertação animal não vale apenas para  não humanes, mas sim para todes inclusive aqueles confinades em fábricas e expostos a extenuantes rotinas de trabalho e condições laborais bastante insalubres.

Este post é uma tradução alterada e com algumas seleções de receitas de uma matéria sobre pastas e cremes veganos da BuzzFeed Food,impressionantemente um alguns dos ingredientes mais usados são típicos daqui do Brasil =)

Oleaginosas, Abacate e Couve-Flor

Já é bem sabido que pastas com sementes oleaginosas são comumente substitutivas para alimentos cremosos tradicionais com base animal, como manteiga, creme de leite, maionese e queijo. Mas além dessas saborosas sementes, é possível usar grãos como ervilha, feijão e grão de bico, frutas e outros vegetais. O resultado é bem legal

molhocouve“A couve-flor é bem nutritiva. Sendo bem honesta é pouco convincente acreditar na combinação molho-massa-couve-flor, mas depois de experimentar e manusear uma versão na minha cozinha, fiquei louca. E por louca, quero dizer, de pé sobre a panela do macarrão e conchinha na minha boca incontrolavelmente. É absolutamente irresistível assim como você esperaria para uma boa massa cremosa”

Adicione as flores de uma couve-flor média/grande em uma cuscuzeira ou em uma panela com cozimento a vapor, assim você evita que as propriedades da planta se perca na água, espere cozinhar e reserve. Em uma frigideira você refoga ou três dentinhos de alho, ou uma cebola cebola, ou quatro folhas alfavaca, ou um punhadão de salsa, coentro, ou cebolinho, ou todos eles no azeite de oliva ou no óleo de girassol. É importante frisar que o único óleo de cozinha bom, disponível no mercado é o de girassol, todos os outros são transgênicos e ah, as vezes é legal usar uma coisa só pra enfatizar o sabor dela na hora de degustar.

massamolhocouveDaí você leva as florzinhas, o refogado, uma xícara de leite vegetal (coco, aveia, arroz, amêndoas, nozes, amendoim, etc), suco de meio limão, sal e pimenta do reino se preferir, tudo no liquidificador, deixe bater bem, por uns dois ou três minutos. Ah, fique a vontade caso queira incluir algum temperinho que você goste muito, por exemplo uma colherinha de vinagre de maçã vai deixar este molho com um aroma bem gostoso.

Você pode jogar o molho assim mesmo direto ao macarrão ou leva-lo ao fogo pra até levantar fervura e então é só jogar a massa, colocar um pouco de gergelim, linhaça ou salsinha fresca picada por cima e abrir a bocona.

servirmolhocouve

Abacate

O abacate já é bastante gorduroso, então neste molho não precisamos por nada de gordura, a do abacate já basta. Pegue um abacate grande despoupe-o todo e bata no liquidificador com meio limão, sal e pimenta do reino a gosto. Você pode usar de temperos, alfavaca, manjericão, salsa, coentro, cebolinha, cebola e alho e de liquído, leites vegetais, chá de erva doce ou água. Caso você prefira usar o processador, não precisa por água, ok?

abacate abacate2 abacate3Caju, nozes, amêndoas, castanha do para, amendoim e outras

“Este molho fica com bastante sabor graças ao cominho, pimenta em pó e pimentões verdes. Neste receita foi usada castanha de caju hidratadas em água por quatro horas, você pode fazer com elas também in natura, mas a hidratação além de deixa-las bem molinhas, elas ficarão mais leve e mais saborosas em forma de pasta. O resultado é um delírio.”

caju3Leve a frigideira meia cebola, de dois a  três a quatro dentes de alho picados, azeite de oliva, sal e pimenta e refogue levemente, não deixando a cebola ficar transparente. Depois bater no liquidificador por cerca três minutos, o refogado, uma xícara grande de castanha de caju hidratadas de 4 a 6 horas, meia colher de chá de cominho, suco de meio limão e metade de um pimentão. Caso fique muito grosso adicione um pouco de água enquanto estiver liquidificando. Feito isso, adicione o molho no macarrão pronto e misture bem. Pode ser adicionado gergelim e linhaça em cima, e polvilhado com coentro, salsinha ou alfavaca bem picadinha. fica nem bonitinho e uma delicia

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caju caju2Delicie-se

Receita de massa de coxinha com recheio de maconha

maconhaplayBem, sabemos que os mais leigos e não tão sintonizados com nossa visão de mundo irão achar meio controverso esta abordagem, por acharem que esta coletiva está associada apenas com a alimentação. Mas antes que qualquer voz ingênua venha nos criticar, avançamos no discurso e dizemos: nosso interesse é pela autonomia e pela liberdade.

E é exatamente por isso que nos posicionamos. Motivades pelo excelente artigo do Recife Resiste sobre a oitava edição da Marcha da Maconha em Recife e pela recente informação que agrotóxicos e fertilizantes químicos estão sendo usados na produção da erva, achamos por bem fazer algumas considerações.

No Brasil a Marcha da Maconha começa a se movimentar em 2002, após um contexto de forte mobilização antiglobalização e a realização do primeiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Nesta conjunura debates sobre uma política horizontal, plural e descentralizada desencadearam a emergência de várias mobilizações políticas que clamavam por novas lógicas de organização, deslegitimação do apanágio legal elitista e contestação ao lucrativo esquema policial genocida. Apenas em 2006 que a Marcha começa a ser realizada sistematicamente por várias cidades do Brasil, entre elas Recife.

Incomodada com a crescente adesão popular, em 2008 várias cidades foram proibidas pela Justiça de realizarem a Marcha, acusadas de apologia ao uso de drogas e formação de quadrilha, sendo Recife, uma das poucas que conseguiu ir as ruas.

Depois de oito edições em Recife, o maior apelo da Marcha agora consiste em legitimar uma política coronelista e mendigar ao Estado a regulamentação do uso terapêutico, industrial, farmacêutico e recreativo da erva, adotando Jean Wyllys, autor do projeto que regulamenta a maconha, como celebridade da vez. Contudo, não esqueçamos que este é o mesmo Estado que anualmente mata milhares de pessoas negras nas periferias e que aplica milhares de reais na compra de armamento, acessórios e tecnologia para destruir plantações e criminalizar usuários. É decepcionante perceber que a inteligência política das pessoas que participam da Marcha não consegue captar que além de lucrativa a proibição investe nas instituições de controle social e repressão. Os terríveis resultados da guerra contra as drogas respingam apenas nas periferias e nos pequenos produtores rurais.

Porém não é nada surpreendente. Para a classe média a quantidade de mortos, a guerra civil instaurada pelo combate ao tráfico, o genocídio da juventude negra e as prisões nas operações militares no sertão não são mais importantes que a liberdade individual e liberal de fumar um baseado com tranquilidade, sem ser importunado pela polícia, seja na compra, seja no consumo. Para esta mesma classe média, que não entende nada sobre a política predatória da produção agroindustrial, mas argumenta as vias da legalização pelo viés da produção, o que importa é obter mais privilégios. Para isso, obedecer a polícia e fazer acordos com as instituições que mais lucram com o tráfico é o caminho básico para obtê-los.

Em Recife a Marcha teve apoio do Governo do Estado, do Ministério Público e do Tribunal de Justiça, órgãos públicos mandantes das diversas violências cometidas pela polícia. Na verdade, este apoio faz parte de uma estratégia de captura das pauta dos movimentos sociais que serve para iludir aqueles que acreditam em mudanças estruturais pela via legal. Eduardo Campos, pré-candidato a presidência da República e um dos maiores financiadores da indústria bélica e de sistema de informação da história de Pernambuco, diz enfaticamente que é contra a descriminalização e a favor de um combate mais efetivo conta as drogas. Segundo Campos, o caminho a ser seguido é por os traficantes na cadeia alimentando a população de meio milhões pessoas confinadas nos presídios brasileiros.

Além de possuir efeitos medicinais a Cannabis tem potencialidade alimentar. Na China antiga era comum usar suas folhas em infusão para incômodos relacionados a prisão de ventre e problemas de menstruação. Nós também acreditamos no efeitos terapêuticos da planta, bem como na riqueza de seu aroma para temperar saladas, molhos e incrementar sucos, mas não a qualquer preço.

A legalização da planta pode abrir precedentes para ampliar diversas tragédias e opressões que já ocorrem no Brasil. A exploração industrial da erva, pode fazê-la matéria-prima para óleos, rações animais, fibras para têxteis, medicamentos patenteados, cosméticos e produtos alimentares, tudo o que atualmente a soja é capaz de fazer. Ao defender a legalização e regulamentação é importante pensar nos territórios indígenas e quilombolas ainda não garantidos e considerar a exploração brutal de mão-de-obra no cultivo agrícola e no processamento industrial. Todas estas questões citadas estão longe de serem resolvidas e provavelmente são ignoradas pela classe média egoísta, que vê na Marcha a oportunidade de reivindicar a facilidade de conseguir um baseado para sua próxima festinha.

Pela luta de uma descriminalização interseccional
Por uma Marcha da Maconha libertária, antiracista, antifascista e anticapitalista

Dhuzati na 2ª Feira Libertária do Seridó

Dos dias 2 a 4 de Maio, aconteceu em Caicó, a segunda feira libertária do Seridó, organizada pelo Coletivo Nenhures. Boa parte da programação aconteceu na Ilha de Santana, região central da cidade. A movimentação no anfi-teatro da Ilha atraiu diversas pessoas, que puderam entrar em contato com livros, informativos e outros materiais das bancas participantes.

A feira teve a participação de coletivos e indivíduos de Campina Grande, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador e São Paulo. A Dhuzati juntamente com a Editora Deriva participou do evento trazendo livros, sanduíches, repelentes, sabões e sabonetes

Confiram as fotos:

A crise européia e a violência do Estado contra as iniciativas autonomas e rurais em Portugual

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Maria Isabel tem 83 anos e segundo o Estado é uma criminosa. O local do crime é o fogão, e assim foi durante muitos anos: vende bolo de laranja no café da zona, sem recibo e juntamente com a filha, formam uma organização criminal.

Eusébia, com 58 anos, produz alimentos na própria cozinha e vende aos vizinhos a 1 euro a unidade. Um dos vizinhos, José Manuel, utiliza o antigo forno de barro que tem no quintal para cozer pão, faz uma quantidade a mais do que a que ele e a sua mulher necessitam para vender aos amigos, tentando assim complementar a pensão que recebe. Alguns dos habitantes mais idosos da aldeia apanham cogumelos e vendem-os a um comprador intermediário. Novamente, sem passar recibo. Por sua vez, este intermediário distribui-os em restaurantes, passa recibo mas fá-lo pelo dobro do preço que pagou por eles.

Marta, proprietária do café da zona, encomendou alface ao fornecedor mas acrescentou umas ervas e folhas de alface do seu próprio quintal. E se quiséssemos uma aguardente de medronho (fruto típico da região mediterrânea na Europa ocidental) quando a garrafa oficial, selada com o imposto fiscal, estiver vazia? o marido de Marte irá calmamente até à garagem e voltará a encher a garrafa com o medronho caseiro do velho Tomás. Podemos chamar isto de autonomia, qualidade de vida ou colorido local – o certo é que em tempos de crise, a auto-suficiência entre vizinhos, simplesmente é o motor fundamental da vida em sociedade.

O Alentejo é uma das regiões mais afetadas pela crise que de qualquer forma afetou todo o país. A agricultura tradicional está em baixa, a indústria é quase inexistente e os turistas raramente se deixam levar pela espetacular paisagem costeira da província. Os montes alentejanos perdem-se em ruínas. Quem pode vai embora, ficando apenas a população idosa a viver nas aldeias, e para a maior parte, o baixo valor que recebem do Estado é gasto em medicamentos, logo na primeira semana do mês. Inicialmente, as pessoas fazem o que sempre fizeram para tentar sobreviver de algum modo. Produzem para si e para as pessoas que conhecem. Não conseguem suportar os custos de recibos ou faturas. Para conseguir iniciar um negócio com licença, teriam de cumprir os requisitos e fazer grandes investimentos que só compensariam num negócio de maior produção.

Ao contrário de Espanha, Portugal não negociou acordos especiais para quem tem pequenos negócios. As consequências: toda a produção em pequena escala – cafés, restaurantes , lojas e padarias – é de facto ilegal. Aos que empreendem sua autonomia, só existem duas hipóteses, ou legalizam o seu comércio, colaborando com o capitalismo e tornando-se grandes produtores ou continuam como fugitivos ao fisco. Até agora e de certa forma, isto era aceitável em Portugal mas neste momento, parece que o governo descobriu os verdadeiros culpados da crise: pessoas modestas, sonegadoras de impostos. Como resultado, as autoridades fecharam uma série de casas comerciais e mercados onde dantes eram escoadas os excedentes das  produções dos pequenos produtores e transformadores, que ganhavam algum dinheiro com isso, equilibrando a economia local.

Há uns meses atrás, a administração fiscal decidiu finalmente fazer algo em relação ao nível de desemprego: empregou 1.000 novos fiscais. Como um duro golpe para a fraude fiscal organizada, a autoridade autuou recentemente uma prática comum na pequena Aldeia das Amoreiras: alguns homens tinham – como o fizeram durante décadas – produzido e vendido carvão. Os criminosos têm em média 70 anos, e os modestos rendimentos do carvão mal lhes permitia ir mais do que poucas vezes beber um medronho.

Não é benéfico acabar com os produtos locais e substituí-los por produtos industriais. São os produtos industriais que levaram à escândalos alimentares nestes últimos anos, devido a contaminação química e microbiana da produção industrial. Apenas grandes indústrias beneficiam desta política, uma política que chega mesmo a gerar a crise. Sendo este um Estado que se submete cada vez mais a depender de importações, um dia não terá como se aguentar economicamente. E na realidade, até parece que a globalização venceu: os terrenos abandonados do Alentejo foram maioritariamente arrendados a indústrias agrícolas internacionais, que usam estes terrenos para o cultivo de olival intensivo e para a produção de hortaliças em estufas. Após alguns anos, os solos ficam demasiado contaminados. Em geral, os novos trabalhadores rurais temporários vêm da Tailândia, Bulgária ou Ucrânia, trabalham por pouco tempo e voltam para as suas casas antes das doenças se tornarem visíveis.

Com a pressão da Troika (referência à Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional que negociaram as condições de resgate financeiro na Grécia, no Chipre, na Irlanda e em Portugal) o governo está a atuar contra os interesses do próprio povo. Apenas há umas semanas atrás, o Município de Lisboa mandou destruir mais uma horta comunitária num bairro carismático da cidade, a “Horta do Monte” na Graça, onde residentes produziam legumes com sucesso, contando com a ajuda da vizinhança. Enquanto os moradores do bairro protestavam, funcionários municipais arrancaram árvores pela raiz e canteiros de flores, simplesmente para que os terrenos possam ser alugados em vez de cedidos. Mais uma vez, uma parte da auto-organização foi destruída pelo Estado. A maioria dos portugueses não aceita isto. No último ano e por várias vezes, cerca de 1 milhão de pessoas – o equivalente a 10% da população – protestou contra a Troika. Muitos demonstram a sua criatividade e determinação durante a desobediência civil: quando saiu a lei que os clientes eram obrigados a solicitar fatura nos restaurantes e cafés, em vez de darem o seu número de contribuinte, 10 mil pessoas deram o número do Primeiro Ministro. Rapidamente isto deixou de ser obrigatório. Também há alguns presidentes de freguesias que não aceitam o que foi feito aos seus mercados. E assim os pequenos mercados locais de aldeia continuam mas com um nome diferente “Mostra de produtos locais”, “Mercado de Trocas”. Se alguém quer dar alguma coisa e de seguida alguém põe dinheiro na caixa dos donativos, bem… quem irá impedi-lo?!

Existe um ditado fascinante: “quando a lei é injusta, a resistência é um dever”. É este o caso. Não são os pequenos produtores que estão errados mas sim as autoridades e as grandes corporações – tanto moral como estrategicamente. É moralmente injustificável negar a sobrevivência diária dos idosos nas aldeias. E estrategicamente é estúpido. Um tesouro raro é destruído: uma região que ainda tem conhecimentos e métodos tradicionais, e comunidades com coesão social suficiente para partilhar e para se ajudarem entre si.

Uma economia difundida globalmente e à prova da crise é o que aqui acaba por ser criminalizado: subsistência rural e regional – o poder de auto-organização de pessoas que se ajudam mutuamente, que tentam sustentar-se com o que cresce à sua volta. Ao enfrentar a crise, não existem razões para não avançarmos juntos. Existem sim, todos os motivos para nos ajudarmos mutuamente, para escolhermos a auto-suficiência e o espírito comunitário rural. Quanto mais incertos são os sistemas de abastecimento da economia global, mais necessária é a subsistência local.

Assim sendo, pedimos a todos os viajantes e conhecedores: peçam pratos caseiros e regionais nos restaurantes. Peçam saladas das suas hortas. Mesmo em festas ou cerimonias, escolham os produtos de fabricação artesanal ou caseiros. Ao entrar numa loja ou café, anunciem de imediato que não vão pedir recibos ou facturas. Talvez em breve, possamos impulsionar uma mudança estrutural mostrando experiências que vislumbrem o comunalismo, a solidariedade e a autonomia.

Por Leila Dregger – versão alterada e corrigida para o português brasileiro
Matéria publicada pelo Ciafop – Centro Internacional de Agroecologia e Formação Política disponível em: http://migre.me/j4uhe