Colonialismo vegano e algumas maneiras de perpetuar o estigma que reina nas vítimas do escravismo

As lutas por emancipação e liberdade devem ser interseccionais, certo? Mas até que ponto estamos imunes de reproduzir opressões hegemônicas contra outros setores subalternos? A naturalização das violências contra as diversas populações estigmatizadas é a arma mais forte do patriarcado civilizacional supremacista

A última semana foi marcada por dois fatos intrigantes e bastante repercutidos nas redes de ativismo pela libertação animal e nós não podemos ficar omissos diante de tantos discursos e práticas que se aliam à forças políticas conservadoras comprometendo drasticamente a luta pela liberdade.

Somos completamente contra a criminalização da população carroceira em Florianópolis, o que não nos faz conivente ou cúmplice dos maus tratos que estes animais sofrem. Este projeto de lei proposto pela vereadora do PMDB, Maria Graça Dutra representa claramente a apropriação de discursos libertários para sofisticar as opressões e permitir a alienação das violências que os setores mais privilegiados pela estrutura hegemônica se beneficiam. Repudiamos veementemente organizações de direitos dos animais de cunho liberal e fascista, que se nega em refletir sobre o caráter colonialista e autoritário de suas ações, e recorrem ao aparato criminalizador do Estado para garantir o que suas experiências elitistas e brancas entendem como liberdade. Para nós estas organizações utilizam o conceito de liberdade na sua forma mais medíocre, apenas para mascarar as violências e os desmandos que comentem contra outros setores marginalizados.    tração2É completamente demagogo uma vereadora do PMDB, mesmo partido da ministra Kátia Abreu e de vários outros latifundiários e pecuaristas se dizer preocupada com o sofrimento dos animais. Está óbvio que está ação tem objetivos eleitoreiros e pretende fisgar ONGS e outros movimentos sociais para a ascensão politiqueira da vereadora. Um enfático e ético comprometimento contra o sofrimento animal questionaria a conivência do partido com o agronegócio antes de se voltar contra pessoas (na sua maioria negras) que trabalham coletando resíduos sólidos e estão sendo duramente estigmatizadas e desvalorizadas por uma sociedade que não reconhece o importantíssimo trabalho de coleta de resíduos sólidos, descartados por pessoas consumistas, egoístas e escrotas. O projeto de lei da vereadora não questiona a exploração animal nos esportes, pela polícia, bombeiros ou instituições militares, na realidade tal projeto só vem a tona mostrar que é mais fácil se posicionar contra os setores que a sociedade despreza, persegue ou finge não ver ao invés de ir no cerne das questões sobre violência e escravização de animais não humanos por criminosos de colarinho branco e outros poderosos.

“Vai ser muito bom não precisar ter de encarar situações que nos agridem emocionalmente”,  diz Isabela Cirno, do Instituto É o Bicho, evidenciando que animais transportando carroças é mais agressor do que o contexto que coloca seres humanos para viver do lixo que pessoas como ela descarta.

Já em Porto Alegre mais uma vez estão tentando criminalizar os ritos religiosos de matriz africana. Membres das religões dizem que Regina Becker, autora do projeto, é evangélica e está perseguindo os povos de terreiro. Por sua vez, ativistas dizem não ser contra a religião em si, mas que é preciso atualizar as práticas aos valores morais da sociedade. Já nós perguntamos: que moral? e que sociedade? Os ativistas veganos estão dizendo é as religiões de matriz afro devem se curvar aos valores morais brancos e ocidentais?

20150324-240315gui_0783-12Em 2003 este debate já tinha sido instaurado e no ano seguinte a proibição do sacrifício animal para uso em rituais religiosos foi retirado do Código Estadual de Proteção aos Animais do RS. A nova investida da deputada deixa uma inquietação: será que a prioridade do debate é mesmo a vida dos animais não humanos ou esta justificativa está mascarando uma linha de pensamento escravista?

Discordamos completamente sobre moral e valores hegemônicos e homogêneos de uma sociedade, projetos veganos universais são colonizadores por concepção e não por acaso almejam seus avanços pautando alianças com instituições de poder estatais (através de leis e políticas públicas) e capitalistas (através de produtos industrializados e alta gastronomia). Experiências universais existiram apenas nas violências colonizadoras, uma vez que a arrogância da superioridade que prevê a expansão de sua crença, jamais compreenderá outras lógicas de relações e outras visões de mundo.

20150324-240315gui_0513-4Pessoas não membras de religião afro, por não compreender suas filosofias e éticas (e como são construídas) não deveriam voltar sua luta para critica-los. Comumente as críticas que reforçam o estigma à população negra, parte de uma localização política branca, classe medista e urbanóide. A relação que povos de terreiro tem com os animais e a natureza é bem mais horizontal, autônoma e integra que qualquer valor ou prática vegana fundada baseada num consumo industrial.

A sociedade ocidental, e suas instituições praticam muito mais desmandos e violências que os povos de terreiro e suas práticas religiosas. Ignorar isto ou colocar eles no mesmo grupo especista é garantir a violência contra subalternos com discurso de libertação, da mesma forma que Igreja Católica tentou, através da sua moral, ‘humanizar’ diversas etnias indígenas.

Antes de se voltar contra os terreiros, se indigne com a construção dos supermercados que você adquire suas comidas cancerígenas, eles só existem graças ao desmatamento e extinção dos animais que viviam naquele ambiente. Antes de criminalizar carroceiros pelas suas práticas repense seu consumo de industrializados reaproveite 100% do seu lixo. Estas posições representam o cúmulo do colonialismo e de fato não temos absolutamente nenhum acordo com este veganismo cúmplice dos resquícios da escravidão e criminalizador da população pobre.

Várias correntes das religiões afro e vários métodos de reciclagem e coleta de resíduos já mostraram a possibilidade de adaptar estes fazeres a uma prática menos predatória e de preservação da vida de animais não humanos. Ao invés de tentar criminalizar setores estigmatizados e nos aliarmos ao Estado e demais forças políticas conservadoras, preferimos apoiar e dar visibilidade a estas possibilidades, tendo a certeza que um cotidiano livre de desmandos só irá emergir com o questionando das práticas por parte de que as realiza e não de quem ocupa locais privilegiados de poder e discurso.

Aos povos de terreiro e a população carroceira todo nosso apoio e solidariedade.

1 ano da Feira Agroecológica Chico Mendes

feira-chico-mendesCom muita alegria que convidamos todas as pessoas a comemorarem conosco o 1º ano da reinauguração da Feira Agroecológica Chico Mendes, iniciativa do Assentamento Chico Mendes, da Associação Terra e Vida e do NAC – Núcleo de Agroecologia e Campesinato da UFRPE.

Boa parte de nossos ingredientes são plantados no Assentamento Chico Mendes e no Sítio Sete Estrelas que compõe a Terra e Vida e pra comemorar este feito tão especial nos juntamos para realizar uma demonstração culinária de alimentos não convencionais, mas muito nutritivos e saborosos.

O Sítio Sete Estrelas irá ensinar como preparar a deliciosa carne de jaca que eles colocam em nos seus maravilhosos sanduíches e nós da Dhuzati iremos mostrar como preparar o mangará, conhecido também como coração ou umbigo da banana.

As comemorações irão ser iniciadas as 6hrs, e ainda contarão com degustação de pães, hortaliças, pastas, além da simpatia e atenção de Amadeu, Cristina, Eliana, Estrela, Isabel e Jacó, pessoas comprometidas com a preservação e bem estar da terra.

Confiram a página do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/1567649860178501/

Indigenas peruanos ganham causa contra gigante petrolífera dos Estados Unidos

3296205062_5f87ba6d25_oDe 1971 a 2000 uma empresa americana produziu 9 bilhões de galões de água contaminada (mais de 30 milhões de m3!) com Cádmio, Chumbo e Arsênico, lançando isso tudo no rio Corrientes, região dos povos Achuar no Peru, matando muita gente que sempre bebeu essa água da maneira tranquila, inclusive crianças que começaram a vomitar sangue após o consumo e faleceram. Depois de 2000 seu contrato acabou e eles partiram. Atualmente uma petroleira argentina segue o baile iniciado pelos estadunidensses – pra vermos como nacionalismos pouco importam quando o assunto é capitalismo.

Por mais que agora parecem ter sido 1000julgados e condenados, é sempre impressionante ver a capacidade dos capitalistas corporativos de destruir terras alheias. Piora o cenário quando vemos “nossa” capacidade de acumular notícias e mais notícias como essas e seguir girando a chave do carro pra ir no supermercado comprar soja (é só ler os ingredientes), e ainda achar que a questão atual é situar-se entre uma defesa nacionalista da Petrobras ou a derrubada dos petistas.. um brinde ao Estupidoceno!

“Eu me pergunto, o que é a inteligência? Para mim é em tudo contrário a esta gente que governa e é governada, sabendo que todos os governos são criminosos e que não se pode governar sem crime.” Lucio Urtubia, pedreiro, falsificador e ativista libertário.

299616726_49e2b81d8e_oFonte: The Guardian
Por: B.N.H.

Reunião Aberta Dhuzati

reunião-aberta2015 será um ano de muitas ações e estamos convidamos pessoas que estejam afim de pegar junto nestas investidas. Pensamos acima de tudo, fortalecer nossa rede de apoio e agregar pessoas interessadas em agroecologia, veganismo, trabalho cooperativado e gestão de espaços autônomos. Abaixo deixamos alguns pontos para facilitar a compreensão do nosso interesse e chamada:

  • estamos com quase tudo pronto para a abertura da casa chás, iremos abrir durante três dias, quinta, sex e sáb e certamente iremos precisar de colaboradores e parceiros (e não de empregados em busca de um patrão).
  • temos imensas dificuldades com transporte, precisamos viajar para alguns assentamentos e transportar coisas grandes e pesadas
  • existe a possibilidade de realizar um grande evento mensal (rodízio) para arrecadar fundos para o aluguel, isto demandara muita ajuda.
  • braços e pernas que estejam dispostos a construir, fazer fornos, trabalhar com a terra e manejar tecnologias autônomas, neste ponto pessoas com experiência fazem muita diferença.
  • interessadxs em colaborar na gestão de espaços autônomos e realizar atividades a partir dos materiais que irão estar no espaço.
  • produção e venda de diversos materiais artesanais

Nosso esquema de trabalho é cooperativado, ou seja tudo é repartido igualmente. Para que este esquema dê certo é importante que as pessoas assumam diversas responsabilidades. Presumimos a divisão de TODAS as tarefas ligadas a realização das atividades, além dos trabalhos de propagação, criação e difusão.

Ah, também serviremos almoço independente de quem for ficar na reunião. Confira os valores e mais informações na página do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/1591184277764010/

Talvez a comida esteja no rodapé da faixada da sua casa

Hoje em dia, pensar em comida nos liga automaticamente ao supermercado e esta é apenas uma daquelas estratégias de dominação e alienação que visa nos domesticar colocando-nos como reféns das vontades e interesses das grandes corporações.

A cada dia que se passa nosso desenvolvimento terceiro mundista, urbanóide e eurocentrista nos deixa cada dia mais des-envolvida com a terra, a natureza e com as surpresas e aventuras que esta relação pode nos proporcionar.

Mas aqui estamos tentando resgatar algumas experiências que nos instiga a novas possibilidades e a novas vivências.

522746322_f2752430bd_zRecentemente foi descoberta uma plantinha que sempre esteve muito presente em qualquer beirinha de terra aqui em nossos arredores, com seu cheiro incrível que ora lembrava pimenta de cheiro, ora maconha, mas ao mesmo tempo tinha algo tão ímpar e específico que não lembrava nenhuma destas duas mais famosas.

O encontro se deu procurando por alfavaca, que costumamos usar para fazer chá, temperar feijão, fazer refolgado de berinjela e usar como pasta combinando ela com talos de cenoura, amendoim e limão. De repente a gata preta aparece dentre os arbustos daquela plantinha e emite um miado não muito convencional, se abaixar para fazer um carinho fez perceber um cheiro bom, forte e desconhecido. Naquele momento foi dado o encontro, a surpresa revelou medo, ansiedade, curiosidade e cautela. Será que é tóxica? Quais serão suas propriedades? Foi percebido que várias formigas comiam suas folhas e isto foi bastante animador.

turnera_ulmifolia_elegans1sMas logo o mistério se acaba, Roberto, o vizinho que cresceu tirando coco da frente da casa que hoje estamos ocupando revelou, “esta é Damiana o chazinho dela é ótimo e tem ‘quisó’ por aqui.”

Pesquisas na internet, comprovaram, Damiana é arretada mesmo. Dá pra comer suas flores e suas folhas, temperar refogados, servir nas saladas, fazer chá, temperar massas, pães, molhos e o que der mais na telha. Porém seu sabor nos revela a péssima cultura alimentícia que estamos atreladas e a possível destruição que os realçadores de sabor causaram em nossas papilas gustativas. Mas também existe a certeza que este estranhamento é apenas uma questão de ajuste. Ao compreender melhor seu aroma, seu sabor e suas porções, combiná-las nas mais variadas possibilidades será uma experiência concreta.

Ah, esta é a época que ela está florescendo e dizem que seus frutos são bem similares ao figo, mais novidades virão por aí

Prazer Damiana, contamos contigo pra seguir adiante

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