Afrolícia em Porto Alegre celebra o encontro de saberes alimentares negros

Em novembro a Dhuzati volta a Comuna do Arvoredo em Porto Alegre, para proporcionar uma experiência inspirada no Mês da Consciência Negra em diálogo com os direitos animais. Em tempos que a ameaça fascista intimida corpos negros, sexodissidentes, femininos e indígenas, a importância de exaltar a cultura negra propagando e compartilhando conhecimentos, sabores, sonoridades e sentimentos afrocentrados, se faz necessário para que a resistência e os saberes de nossos ancestrais não sejam apagados pelos interesses de uma supremacia branca antropocêntrica.

Para nós é impossível debater negritude sem reconhecer que a ideia de raça se estende para além dos humanos, afinal essa premissa científica emergiu a partir de uma assimetria sobre as capacidades dos corpos baseada na biologia. Os corpos não brancos foram e são constantemente animalizados da mesma forma que os corpos não humanos são racializados. Acreditamos que é possível rearticular as políticas de libertação negra incorporando os animais não-humanos num movimento que renuncia as definições de vida branco e antropocêntricas.

O cardápio regado pela musicalidade de Kakau Soares é uma atração a parte, criamos uma combinação que resgata sabores originais e surpreendentes presente em África e as ressignificações da diáspora criada nas Américas, fazendo um encontro de criações africanas, passando pelo Sul dos Estados Unidos, Caribe, Brasil, Antigo Egito, África Árabe e Senegal. Será uma noite com muito axé e magia, que pretende unir e consagrar uma resistência que segue criando nas margens e driblando o apagamento necropolítico que vigia nossa existência.

 

Maafe

Originário do povo Mandinka e Bambara do Mali e conhecido como domodah ou tigadegena na língua destes povos, este prato é um guisado, caril ou molho de amendoim comum em grande parte da África Ocidental, que inspirou variantes na culinária das nações da África Central. É a comida favorita entre vários grupos étnicos do Senegal e da Gâmbia.

A região da África Ocidental e Central, não tem na marca de sua culinária grande influência europeia como em outras partes do continente, a cozinha destas duas regiões continuam próximas dos ingredientes e técnicas tradicionais, contudo a enorme expansão do cultivo de amendoim, nativo das Américas, durante o período colonial, transformou o Maafè numa comida popular em toda a África e a mandioca, o amendoim e algumas espécies de pimenta, que chegaram junto com o comércio de pessoas escravizadas em meados do século 16, tornaram-se parte dos sabores de vários povos africanos.

As receitas para o cozido variam muito, mas o Maafe é tradicionalmente servido com arroz branco (no Senegal , Mauritânia e Gâmbia), fonio ou mingau de milho (Mali), cuscuz (Saara), ou fufu e batata doce nas áreas mais tropicais (Costa do Marfim). No Afrolícia ele será acompanhado com o Hoppin’John uma espécie de baião de dois da américa negra.

Hoppin’ John

Esse clássico da culinária negra no sul dos Estados Unidos, está presente na cultura alimentar de vários lugares, com nomes e preparos diferentes. As primeiras receitas aparecem em livros que datam da década de 1820, embora a população negra tenha realizado essa mistura de arroz com feijão macassar, fradinho, caupi ou nhemba muito antes disso. Este feijão passou a ser cultivado na África Ocidental e foi trazido na diáspora, utilizado para alimentar africanos ocidentais escravizados no caminho das Américas. No início de 1700, o feijão macassar se expandiu nas colônias da Carolina e, como na África, foram plantados nas fronteiras dos campos para ajudar a conter as ervas daninhas e enriquecer o solo, fazendo deste ingrediente um dos poucos alimentos ligados fortemente a cultura afro-americana e do sul. Uma das justificativas para o nome do prato faz referência a um senhor negro que ficou conhecido por vender a iguaria nas ruas de Charleston.

Fato é que Hoppin’John faz parte do arcabouço culinário negro, sendo uma versão do Thiebou Niebe de Senegal, do guianense Cook-up Rice e do nordestino Baião de Dois, onde todos preservam o feijão de África como base. Porém várias receitas usando as leguminosas nativas criaram versões que incluí outros tipos distintos de feijão como Arroz con Gandules em Porto Rico, Gallo Pinto na Nicarágua e Costa Rica, Pabellón Criollo na Venezuela e Moros e Cristianos de Cuba.

No final do ano, para os afro-americanos e no sul dos Estados Unidos, faz parte dos rituais festivos servir esta delicia para chamar prosperidade e sorte e isto inevitavelmente tem a ver com a simbologia que a negritude guarda sobre esta preciosa espécie de feijão.

Tameya

Como já falamos aqui outras vezes, tudo indica que a técnica de hidratar leguminosas, temperá-las e aquecê-las surgiu no Egito por volta de 5.000 anos, ainda nos tempos dos faraós. Esta receita original era feita com favas, semente de coentro e endro, além dos ingredientes ainda hoje preservados como salsa, cebola e alho. Do contato com esta técnica os árabes incorporaram o grão de bico e criaram o falafel, já os iorubás usaram seu feijão macassar e criaram o akara que no Brasil virou acarajé. Mas o fato é que no Egito essa iguaria ainda é reconhecida como ta’ameya, preparada com favas e vendida fortemente nas ruas.

Vatapá

Um dos ícones da culinária baiana também é perseguido por severas controvérsias sobre sua origem, salpicada por divergências e desconfianças. A versão que temos hoje, na maioria dos sites e livros dedicados a culinária, não deixa dúvidas de sua afro-baianidade. Os iorubás realizavam uma preparação similar que nomeavam de ehba-tápa, aqui foi acrescentado o amendoim, a castanha de caju e o leite de coco. O Vatapá também é popular no Amazonas, no Amapá e no Pará, mas esta receita sofre variações como a ausência de amendoim e dendê.

Chermoula

Criado no Marrocos, mas presente na Argélia, Tunísia e Líbia, a Chermoula tem um rico sabor de ervas, especiarias e azeite de oliva transformando o combo num molho maravilhoso. Em sua mistura ainda conta com a participação do coentro e do cominho, que não por acaso, foram incorporados de maneira ímpar na culinária nordestina, região do Brasil onde se concentra a população negra. O molho ainda leva pimentas frescas.

Didi

Uma sobremesa de criação da Dhuzati inspirada no conkie do Barbados, uma espécie de pamonha doce cozida a vapor, com abóbora, coco, uva passas numa massa com base de fubá. A receita foi escolhida por preservar um tipo de técnica presente na cultura negra que é de envolver uma massa espessa em folhas ou palhas de vegetais e cozinhar no vapor. Nossa versão será assada no forno sob folhas de bananeira, e foi nomeada homenageando Didi Winston, ativista trans num país onde relações não heterossexuais são tipificadas no código penal apesar de ser raramente aplicada.

Stella

Homenageando a Mãe Stella de Oxóssi, maior e mais importante Ialaorixá viva do camdomblé, mulher negra e lésbica. Esse suco de hibiscos com laranja e hortelã trás a marca das violências lesbofóbicas e um chamado que visa alertar a comunidade em prol dos direitos animais sobre as noções de respeito em relação aos animais não humanos que as cosmologias africanas ameaçadas pelo colonialismo e antropocentrismo guardam. Esta bebida preserva o resgate das sexualidades, afetos e relações entre espécies que acabaram sendo adestradas, criminalizadas e estigmatizadas pelas instituições da modernidade eurocêntrica.

SERVIÇO
Afrolícia: uma experiência afrovegana
Comuna do Arvoredo, Fernando Machado 464, 19h
Porto Alegre, RS

MoNSTRuoSas: Cardápio antiespecista e sexualidades monstras

Nesta sexta inicia a MoNSTRuoSaS, com grande parte de sua programação na Casa Lilás da Dhuzati, em Dois Irmãos, recebendo a La Gorda Vegana numa excitante troca de experiências sexodissidentes antiespecistas.

As 17h tem o lançamento do livro La Cerda Punk – Ensaios de um feminismo gordo, lésbico, antiespecista e anticapitalista com Missogina, anarcofeminista gorda, lesbica e vegana. O livro trás reflexões sobre os vínculos da heteronorma e o especismo, colonialidade, gordofobia, feminilidade não hegemônica, pornografia dissidente, entre outros temas radicais de questionamento antisistêmico.

As 19h inicia a MoNSTRA – Mostra Nordestina de Sexualidades e Travestilidades em Resistência no Audiovisual, iniciativa fruto da articulação da Distro Dysca e Coletivo Coiote com a produtoda mexicana Filmaralho e o festival peruano Pornífero. Em perspectiva anarquista, a mostra utiliza a arte como ferramenta de contestação às culturas hegemônicas de sexualidade, gênero, abordando vozes periféricas às indústrias da arte e do audiovisual e reunindo produções independentes do Brasil e América Latina.

O cardápio da noite é assinado pela La Gorda Vegana e Dhuzati e repleto de novidades com Esfixota, esfihas em formato xoxota com recheios de Choclo um prato chileno a base de milho e manjericão; e Berinjela temperada com cenoura e cebola além das Cebolas empanadas com acarajé e falafel e Pão de Jaca, recheados com queijo de gergelim. E de sobremesa um Bolo Pelado de prestígio.

O Bar ainda conta com cerveja sem milho transgênico, cachaças artesanais e sucos de frutas coletadas da mata e recicladas. Durante todo o evento teremos banquinhas com zines, materiais artesanais e brechó.

A organização do evento lembra que este evento é voltado para o encontro e fortalecimento das sexualidades dissidentes, portanto homens cisheterossexuais não são bem vindos, sendo suas presenças inconvenientes a esta agitação política sexodissidente.

Africalimente-se: Culinária Vegetariana de Inspiração Ancestral

Firmando nosso axé na emancipação alimentar, a Dhuzati apresenta uma ação que intersecciona o antiespecismo – através da culinária vegetariana estrita – e o antirracismo – através do resgate histórico da culinária afro-brasileira e da investigação da culinária africana. Muito mais uma ação direta que um evento, o AFRICALIMENTE-SE traz o protagonismo negro para a construção de um veganismo que possa unir vidas humanas e não humanas contra o antropocentrismo europeu através da prática de uma culinária criativa e combativa.

Nesta segunda edição, recebemos para inebriar nossos pratos com sua voz negra e radiante a cantora Aninha Martins com Jonatas Onofre e soundlounge de Sarita de Gzuis. Aninha é letrista e intérprete, daquelas artistas que para receber o título de ‘nova voz da MPB’ ou ‘diva’, lhe falta apenas a visibilidade merecida. Já Sarita é dj e performer paraense, filha de tacacazeira, que enfrenta com irreverência a luta cotidiana de uma sociedade opressora, transfóbica e intolerante.

Aninha Martins, é dona de vocais fortes e sonoridade marcante, costuma surpreender seu público com performances viscerais.

Sarita de Gzuis tem o trabalho como condição e a organização como alternativa contra os ataques daqueles que exploram!

Construíndo um afroveganismo que tem muito o que aprender a cerca de respeito aos animais não humanos com os cultos afrobrasileiros, e reconhecendo a experiência prática da  culinária norte-africana com suas infinitas criações vegetarianas, nosso objetivo, torna-se fazer o encontro de culturas produzidas como menos racionalizadas e perigosas pelo eurocentrismo branco moderno, resgatando conhecimentos alimentares e utilizando ingredientes parte da cultura alimentar iorubá, árabe e etíope, como coentro, fava, cominho, feijão macassar, pimenta e amendoim, que não por acaso, são presente no cotidiano nordestino.

No nosso cardápio Acarajé com Vatapá (10$) e Isu Rogodo com Chermoula (10$) de petiscos, com opção de meia porção. Efó acompanhando Xinxim de Jaca (15$) ou Shalan Ful (15) como pratos principais e Oguedê, que nada mais é que banana frita com canela, de sobremesa (4$), além de sucos de frutas orgânicas e cerveja puro malte.

Povos da África, desde os tempos áureos das grandes civilizações até os dias modernos reféns da pobreza, da exploração industrial e do neocolonialismo tiveram uma dieta em grande parte vegetariana que dependia fortemente de grãos, vegetais, frutas e legumes. Uma das leguminosas mais populares na dieta africana é a fava que durante muito tempo foi provavelmente uma das principais fontes de proteína para povos desta região. É valorizando sabores e conhecimentos ancestrais, desindustrializando e desprofissionalizando a culinária, entendendo-a como um ritual caseiro, amistoso, coletivo e sem chefes que nossa proposta de descolonização alimentar te convida à africalimentar-se e sentir neste sábado, 29/04.

SERVIÇO:
Africalimente-se: culinária vegetariana de inspiração ancestral
Dhuzati Coletiva Antiespecista Artesanal
Rua da Biblioteca da UFRPE, Casa Lilás
Dia 29 de Abril, a partir das 19h.

Masala Dosa, Panquecas e Descolonização Alimentar

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Serabi, panquecas da Indonésia

Panquecas (pancake, na língua do colonizador) são uma espécie de pão-bolo que mais vale pelo formato que pela receita. Seus ingredientes variam em cada região e territórios, tendo como base o trigo. Geralmente feita com trigo, óleo vegetal e água, – na versão vegetariana estrita ocidental e chinesa – também pode ser feita com outras espécies de farinha como o teff, originário da Etiópia (passando a chamar Injera) ou com farinha de grãos e leguminosas hidratadas, como na Índia (sendo chamada de Dosa ou Appam).

O que classifica uma panqueca é seu formato fino e redondo, geralmente cozido em assadeira ou frigideira untada a óleo. Por ser de fácil preparo, suspeita-se que esta seja a receita com base cereal mais antiga e difundida desde a pré-história. Com diversos nomes e ingredientes distintos, por perversidade hegemônica alimentar entrou na globalização com um nome homogêneo, que a distancia de uma ancestralidade rica e diversa, aproximando-a da atualidade industrial e venenosa, através das misturas pré-prontas nas quais são acrescentados químicos e sintéticos transgênicos.

Panquecas Macassar, recheadas com salpicão de cenoura e queijo de girassol

Panquecas Macassar, recheadas com salpicão de cenoura e queijo de girassol

Porém, nosso compromisso é com o resgate histórico de receitas que sobreviveram de maneira resiliente e resistente à colonização. E diante deste desafio cotidiano, uma coisa é certa: esta receita prática nos inspira experimentações.

Masala Dosa Tradicional

Masala Dosa Tradicional

Nossa versão pirateada das panquecas são, podemos dizer, pães-torta inspiradas muito mais no Masala Dosa indiano que nas próprias panquecas americanizadas. A partir da receita da Torta de Acarajé fomos experimentando possibilidades dessa massa rica em carboidratos e proteína vegetal que se mostra cada vez mais diversa em suas texturas e formas. A massa do acarajé, nas mãos das bruxas negras da Dhuzati, além de torta, já viraram burguers, falaféls, pizzas até chegarmos nas panquecas que serão oferecidas neste SABAMATA e qual já disponibilizamos a receita.

Utilizando óleo vegetal, água e feijão macassar como base, vamos mostrar que a criatividade é nossa maior ferramenta contra uma alimentação industrial. O Feijão Macassar por si já é nossa bomba alimentar descolonial, na qual em uma quantidade de 100g, são encontradas cerca de 60g de carboidratos e 20g de proteínas. Muito próxima à receita do Masala Dosa, a fermentação – que pode estar presente ou não na receita da panqueca – é produzida naturalmente pelo Macassar quando hidratado. Além, de ser livre do glúten.

Veganismo popular e descolonial em receitas ancestrais, você encontra aqui na Dhuzati.

SERVIÇO:
SABAMATA – Panquecas Macassar
Sábado, 03 de Dezembro, a partir das 12h
Rua da Biblioteca da UFRPE, Casa Lilás
Dois Irmãos

Referências:
http://www.mundoboaforma.com.br/7-tipos-de-feijao-beneficios-calorias-e-informacoes-nutricionais
http://www.alimentacaovegetariana.com/2014/05/um-receita-exotica-vegetariana-e.html
https://en.wikipedia.org/wiki/Pancake#Horn_of_Africa

Dhuzati no Festival Visonário BoiKOT

7e5e20_bbd21b39e8804bb999318ade1f7e8be5mv2_d_3508_4961_s_4_2A resiliência e as conquistas da luta por uma vida não subordinada é o que nos move em torno das políticas que acreditamos como forma de vivência possível hoje. Para nós a precariedade é uma potência que respira autonomia e protagonismo político, convidando a criatividade, o apoio mútuo e o empoderamento para uma ciranda de experiências livres de especialistas, comprometidas a garantir com nossas próprias mãos e pelos nossos próprios meios as mais básicas de nossas necessidades.

É neste percurso dissidente, combativo e materialmente transitório que fomos convidadas a fazer parte do II Festival Visionário pelo Coletivo BoiKOT para compartilhar nossas práticas e conhecimentos a cerca de uma culinária de resistência, bem como preparar e oferecer comidas veganas objetivando a conexão sensorial e subjetiva das pessoas com meios livres, éticos e descolonais de alimentação. sam_2220Considerado possivelmente como o primeiro do gênero a oferecer uma alimentação vegetariana estrita no Brasil, o festival realizado na Fazenda Cajueiro na cidade de Altinho, agreste pernambucano, contou com a exuberante flora do semi-árido, ambiente noturno perfeito para observar os astros e uma grande variação de temperatura. O evento pretendeu ser um espaço onde a arte possui intenção de fomentar a transformação pessoal, se localizando como parte de uma onda de mudanças, cujas raízes remontam aos costumes ancestrais, mas com frutos revestidos de tecnologia e inovação. É a partir disso que nos aproximamos e depositamos energia nesta proposta, com uma equipe composta 100% por dissidentes sexuais e de gênero, autorganizadas e sem chefes com o desafio de levar uma proposta alimentar crítica, onde nossa autonomia e nossa insubordinação à autoridade machista e heterossexista servisse como tecnologia para destruir as hierarquias dentro da cozinha, a gourmetização (elitismo alimentar) e o higienismo.

Num ambiente voltado para a permacultura e bioconstrução, pudemos sentir que a autonomia jamais poderá ser elástica se as distintas forças que impulsionam o movimento não se entendam como uma rede e não se apoiem mutualmente. Através de nossa ação na cozinha tentamos mostrar que “faça você mesmo” está longe de ser faça de qualquer jeito. Uma vez que nossos fiscais e avaliadores não existem, nossa confiança é estabelecida pela eficácia e qualidade do que está sendo oferecido e das relações de cuidado, acolhimento, atenção e respeito que vamos construindo a partir disso. Para nós dissidentes, periféricas e antifascistas a frustração ou decepção na realização de experiências que coloquem em cheque as noções de civilidade, urbanismo e conforto consumista podem atuar fortificando a convencionalidade, reafirmando-a e descredibilizando nosso fazer dissidente. Entendemos autonomia muito mais que uma responsabilidade,  como uma tática de guerra.

O veganismo como tendência ética e em perspectiva interseccional, não se resume ao BoiKOT de produtos de origem animal, ele nos trás sobretudo, uma nova perspectiva de ocupar os territórios, questionando princípios escravistas, a colonização e as grandes monoculturas ameaçadoras de vidas selvagens humanas e não humanas. Na nossa vivência priorizamos a descolonização alimentar no resgate de ingredientes manipulados por nossas ancestralidades indígenas e negras, fazendo uso de PANCS e do próprio lixo que produzimos, pois a desconstrução e a emergência de novas vivências não se faz apenas com estéticas, mas sim com práticas cotidianas radicais e ameaçadoras das verdades científicas, capitalistas e civilizadas!

15133863_1137612422952917_1681694314_oSeguir, sempre errante, experimentando estas dinâmicas, nos trás alguns problemas, uma vez que somos monitoradas pelas tecnologias de vigilância capitalista. É certo que nosso envolvimento com ocupações, luta pela terra, trabalho ambulante, combate ao machismo, coleta e reciclagem de alimentos sempre nos tratá algum tipo de conflito com o Estado, instituições, mercado e com os fiéis colaboradores da modernidade ocidental, mas é exatamente na linha de fuga da normalidade que um outro fazer possível aflora, contrariando a reprodução sistemática incutida em nossa subjetividade, disseminando como vírus práticas categorizadas como nojentas, bizarras e ilegais e atuando como um câncer contra as políticas de controle dos corpos que sequestram a autonomia os seres em nome de uma saúde farmacológica, do Estado de Direito e da propriedade privada.

O Festival Visionário foi um desafio que possibilitou uma vivência incrível e um aprendizado coletivo e individual que se tornará referência ao longo de toda nossa trajetória! Só gratidão a quem nos prestigiou, apoiou e reconheceu nosso trabalho!

Axé Visionário
Nossas poções veganas e ebós anticivilizados estão se espalhando, sigamos!