Frutos amazônicos

Ao nos deparar com a diversidade presente na amazônia, começamos a entender que é possível usá-la como arma contra a colonização alimentar. Com frutos apreciados integralmente, quase sempre crus e sem grandes preparos culinários a cultura alimentar amazônica tem muito a nos ensinar sobre descolonização dos sabores e práticas regulares de consumo de frutos.

Aqui segue uma pequena lista de frutos ainda não muito conhecidos da amazônia. A pupunha que fora do norte é conhecida mais pelo palmito de sua palmeira, tem sabor delicioso além de acesso popular, diferente do palmito que é gourmetizado e para ser extraído pressupõe a derrubada do tronco da planta. Outras frutas curiosas que conhecemos como Uxi, Turucibá, Rambutã e Biribá, acabaram não entrando nesta lista pois a vivência pedia mais atenção que os recursos tecnológicos.

A Pupunha é a única que se come cozida e excelente pra café da manhã, tem uma textura e sabores que podem parecer estranhos no começo, mas difícil parar de comer se entrar na rotina.

Tucumã, a iguaria mais babadeira da amazônia, este fruto é simplesmente demais! A maioria da população come ele em natura mesmo, descascando com a faca em meio a um papo. Também se come com pão, tapioca e fiquem chó, em Manaus tem até pizza disso. Desta forma trouxemos o cuscuz presente no cotidiano da zona da mata nordestina adicionando o incrível tucumã, pra começar o dia com o vigor do amarelo e aquela energia de óleo das palmeiras.

Umari, impossível resistir, presença garantida nos cafés da manhã, almoço e jantar, acabamos desenvolvendo uma receita base para este fruto tentando respeitar a premissa de não usar muita tecnologia, seja, eletrodomésticos ou o próprio fogo para consumo. Assim surgiu a umarinese, que consiste numa grande quantidade de poupa de mari com um pouco de água. Esta técnica pode render, tanto a marinese, quanto creme pra doces quando molho a depender da quantidade e mistura de líquidos que se coloca.

Mari-Mari ou Ingámari, comemos apenas in natura, refrescante, gelatinoso, com um doce crítico, que você encontra ao abrir um ingá de aproximadamente 80cm.

Bacaba, coletamos direto do pé junto com a macaxeira (sim lá tem macaxeira e mandioca e não são a mesma coisa) no sítio agroecológico de D. Sulamita. Descemos o rio Igapó Açu nos distraindo com estas sementes na boca in natura e guardando suas sementes é claro. O vinho de bacaba e muito consumido pela população local, sendo encontrado também nas feiras livres, obtido através de um processo de extração da polpa muito parecido com a do açaí.

Cupuaçu, comido fresquinho recém tirado do pé é a melhor combinação de doce-ácido quelônios amazônicosque pode existir.

A Castanha da amazônia, despensa comentários, aprendemos uma receita que compartilharemos aqui em breve de doce do seu leite. Quem nos passou foi D. Sulamita, uma senhora muito simpática residente da comunidade Igapó Açu e nos mostrou que o doce serve pra tudo, desde de presente pra dar uma agitada na criançada até para adoçar o café, chás e sucos.

A partir dessa variedade, enfatizamos que tanto nutricionalmente quanto eticamente, a floresta oferece possibilidades alimentícias que coloca em cheque a necessidade da caça predatória aos animais selvagens e a escravidão dos animais não humanos trazida pela colonização da terra e pela domesticação. Óbvio que há muito a ser trabalhado na propagação dos direitos dos animais no cotidiano e nos próprios projetos de conservação de espécies em risco, contudo não podemos esquecer que o conhecimento popular e ribeirinho muitas vezes podem ser aliados nessa empreitada, guiado por um afeto e ética já presente no dia dia de quem tem a convivência com os animais não humanos, sejam eles selvagens ou domesticados, uma realidade material, que entende-os também como sujeitos.

Três maneiras do Veganismo Negro desafiar a supremacia branca

Há certas coisas que as pessoas negras nos Estados Unidos chamam de “merda de gente branca1“. Você sabe, atividades predominantemente apreciadas por brancos. Isso muitas vezes inclui coisas como caça de tempestades2, BASE jumping3, hotyoga, brunch4 e confiar na polícia.

Muitos dirão que o veganismo também pertence a esta lista. Isto era o que eu costumava pensar, a hipótese de abandonar todos os produtos e subprodutos de animais é uma busca extra, bizarra e inacessível para a maioria de nós. Eu vi tantas pessoas veganas – brancas, é claro – me deixarem a impressão de que o veganismo é apenas uma dieta indulgente por aqueles com renda disponível. Elas me silenciavam tentando comparar a opressão animal não-humana com a escravidão e tentando envergonhar o consumo de carne com imagens gráficas de sofrimento animal.

Mas e se houver mais no veganismo do que isso?

Eu não sou vegano, mas fui levado a ler o Afro-ismo: Ensaios sobre Cultura, Feminismo e Veganismo Negro de Duas Irmãs por um amigo próximo (também não-vegano) que afirmou que o livro conceitua o veganismo de uma maneira que descentraliza a brancura e critica a intersecção do colonialismo com a raça e a animalidade.

Isso me fez pensar: e se o Veganismo Negro for bem sucedido onde as representações populares e brancocentradas da ética vegana, falharam, se tratando das análises das normas sociais opressivas ligadas à situação dos animais humanos e não humanos?Eu sempre assumi que o “Veganismo Negro” era apenas um veganismo branco experimentado e perpetrado por pessoas negras, e não um panorama para analisar várias opressões. Eu certamente nunca pensei em nada revolucionário. Vendo que Aphro-ism foi escrito por duas mulheres negras (Aph e Syl Ko) que se reconhecem defensoras dos direitos dos animais e ativistas anti-racistas, eu dei uma chance ao livro. Agora, estou repensando o modo como os vieses definidores de nossa sociedade criam padrões desumanizantes que não só me impactam como uma pessoa negra, mas também se estendem aos animais, define nossas opções de comida e empoderam uma indústria de alimentos racista.

Quero enfatizar que a libertação que as irmãs Ko preveem é menos sobre o consumo de carne e mais sobre a necessidade de reformular o racismo para incluir a relação entre o sentimento anti-negro e anti-animal, como princípios do patriarcado capitalista na supremacia branca. É este arranjo cultural que conceitua e justifica o consumo de carne nas sociedades patriarcais capitalistas da supremacia branca.

Dada esta análise distinta, aqui estão as três coisas principais que eu aprendi sobre o Veganismo Negro. Eu acho que o mundo inteiro precisa saber:

  1. O Veganismo Negro investiga a raiz e o alcance do pensamento colonial.

    Aph e Syl Ko trazem à frente o trabalho de escritores anticoloniais como Franz Fanon , Sylvia Wynter, María Lugones e Aimé Césaire para argumentar que a categoria animal também é uma invenção colonial imposta a animais humanos e não humanos. Em seu livro, as irmãs Ko exploram como as construções coloniais de compreender as desvantagens de animais não-humanos, também vão se infiltrando nas opressões humanas, particularmente a opressão racializada. Isso se relaciona com forma como pensamos sobre a raça ou o pensamento racial, o que leva ao ponto dois:

  2. O Veganismo Negro nos obriga a considerar as maneiras pelas quais a ideia de raça se estende além dos corpos humanos.

    As irmãs Ko argumentam que a ideia de raça abrange mais do que o discurso limitado das reflexões raciais sobre cor de pele, corpo humano e localização. Elas retratam o pensamento racial como uma ferramenta que alveja e distorce não só as pessoas, mas também as regiões, todos os membros do ambiente, conhecimento, linguagem e conceituação humana do tempo e do espaço em si. Interligando o pensamento racial e as ferramentas coloniais se compreende a animalidade.

    O que nos leva à poderosa interação do colonialismo e da raça no ponto três:

  3. O veganismo negro examina como “características animais” são negativamente atribuídas a animais não humanos e não brancos.

    As irmãs Ko argumentam que a animalidade é um conceito eurocêntrico que contribuiu para a opressão de qualquer grupo que se desvia do ideal da supremacia branca do Homo sapiens branco. Considere como as pessoas exigem sua humanidade justapondo seu valor superior imaginado com o status inferior assumido do animal. Tenho certeza de que todos dissemos, pensamos ou testemunhamos o sentimento ao longo das linhas de “Eu não sou um animal!” E “Não me trate como um cachorro! “

Esta linguagem se baseia casualmente numa ideia prescritiva que concede aos seres humanos (os seres “humanos direitos”5) um status superior aos considerados não humanos. O veganismo negro nos pede que examinemos os processos de pensamento socializados que consideram certas entidades aptas ao abuso, processos de pensamento que muitas pessoas, inclusive eu, simplesmente naturalizam.

Pensar no emprego de ideias hierarquizadas como “outros” ou “sub-humanos” reflete como o conceito de “brancura” construído social e politicamente é concebido e entendido como oposição a outras categorias na hierarquia racial. Semelhante a isto, a forma como a brancura se define demarcando uma separação dos “outros”, concebe e faz alusões associadas à “humanidade” e ao “humano” que da mesma forma, são organizadas em oposição ao “animal”.

Isto não quer dizer que as experiências dos negros e dos animais são as mesmas, mas a supremacia branca procura organizar sistemas sociais que saciam os interesses da brancura à custa de todos aqueles que se encontram fora dessa forma de categorização.

A supremacia branca dá uma maior consideração pelo valor intelectual, comportamental e inerente daqueles definidos como “brancos”.

A supremacia branca é uma ideologia sistêmica e sistemática assada no DNA social dos Estados Nacionais.

O veganismo negro está determinado a revelar como esta lógica eurocêntrica é reproduzida para criar a distinção de animais através de numerosos exemplos de tecnologias colonialistas impostas a diferentes sociedades. As irmãs Ko descobrem como as pessoas negras – como uma extensão da natureza racializada em ambos: humanes e animais – são animalizadas dentro de nossa sociedade como meio de explorar, violar e eliminar-nos.

O veganismo negro não é apenas o ato de pessoas negras plantar jardins e defender os direitos dos animais de uma maneira brancocentrada. O veganismo negro é um movimento sociopolítico que renuncia a definições de mundo brancocêntricas, enquanto rearticula as políticas de libertação negra incorporando animais não-humanos através da lente da animalidade e da raça.

Em outras palavras, o Veganismo Negro reexamina as normas sociais impostas a nós e chama a política que muitas de nós consideramos como garantidas.

Não estou dizendo que concordo com todos os argumentos e conclusões oferecidos por este livro. No entanto, aprender mais sobre o veganismo através de uma lente negra certamente desafiou meus pressupostos e a forma como vejo o mundo.

Isso me empurrou para reavaliar o que eu acho que conheço sobre a história e as maneiras pelas quais os padrões supremacistas brancos formaram a nossa cultura, a linguagem que usamos e o que se tornou meios legítimos de dieta e fontes alimentares.

Angela Davis me ensinou que “o radical simplesmente significa agarrar as raízes “. Se queremos realizar a libertação de todas as opressões tecidas na tapeçaria de nossa cultura, faz sentido desestabilizar modelos teóricos dominantes de opressão (e libertação) que podem ser incorporados nas origens colonialistas supremacistas brancas.

Ou, no mínimo, ouça o que as pessoas veganas negras têm a dizer sobre esses assuntos complexos. Quem sabe, ouvir talvez pode fazer com que mais de nós repensem nossas percepções.

Este texto é uma tradução livre da Dhuzati, publicado no Black Youth Project escrito por Sinceras Kirabo, coordenador de justiça social da American Humanist Association e colunista do The Humanist, HuffPost, Everyday Feminism, entre outros meios de comunicação.

Para nós a pertinência deste escrito é resgatar noções sobre Direitos Animais presente no Veganismo, enquanto movimento de emancipação, localizando os interesses da supremacia branca em sofisticar o especismo com a emergência do Veganismo Liberal, usado como ferramenta para a assimilação e mercantilização de discursos políticos radicais, já que seu foco se restringe ao consumo de produtos e criminalização de pessoas negras e pobres (e não com a libertação animal). Este debate portanto inicia não só uma intersecção do pensamento colonial sobre os conceitos de raça e animal, mas sobretudo nos alimenta a investigar as relações das culturas não civilizadas e não brancas com animais não humanos, visibilizando o respeito presente nestas interações como parte de nossas heranças ancestrais.

NOTAS

1 White people shit, no original N.T.

2 A perseguição por tempestade é uma atividade comum nos Estados Unidos realizada principalmente como um empreendimento criativo. É amplamente definida como a busca de qualquer condição climática severa, independentemente do motivo. Uma pessoa que persegue tempestades é conhecida como um caçador de tempestades. Ao testemunhar uma instabilidade climática o objetivo principal para a maioria dos caçadores é o prazer em ver fenômenos naturais e as metamorfoses das estruturas de nuvens, relâmpagos. N.T.

3 BASE jumping é uma atividade na qual a pessoa base-jumper salta de penhascos, prédios, antenas e até pontes. Para esse tipo de atividade se faz o uso de um paraquedas apropriado para aberturas em baixas altitudes. A sigla B.A.S.E provem de “Building Antenna Span & Earth”, ou em português, “Prédio, Antena, Ponte e Terra”. N.T.

4 É uma refeição de origem britânica que combina o café-da-manhã (breakfast) com o almoço (lunch). É normalmente realizada aos domingos, feriados ou datas comemorativas, quando toda a família se reúne entre 10 e as 14 horas (por tempo indeterminado) à volta da mesa.

5 Referencia a frase: “direitos humanos para humanos direitos” que tenta justificar a violência institucional contra corpos desprivilegiados e marginalizados

A crítica antiespecista não é sobre consumo, é sobre a relação de poder entre animais humanos e não humanos

A localização de classes dentro do veganismo é pertinente, assim como é inegável reconhecer que muitas vegetarianas adotam discursos que menosprezam pessoas com base numa cultura elitista e práticas micofascistas, isso é cruel e opressor. Porém, usar de desonestidade e fazer apontamentos anti-elitistas, ignorando a cultura carnista, especista e o não reconhecimento dos animais como seres com vontade própria: a de não morrer, por exemplo, bebe da mesma fonte do principio de anulação das diferenças! Porque ao falar de privilégio em escolher o que comer, também não falamos do privilégio em poder escolher não morrer? Seria, mais uma vez, a vida dos animais menos importante os interesses humanos?

Acesso a informação é sim um grande problema dentro da cultura especista e por isso é necessário reconhecer a importância de realizar trabalhos mais explicativos e pedagógicos, entre nossos grupos de afeto, como ação de propagação e contaminação. Mas não é só isso, nossa apatia em relação a vida dos animais e as violências que cometemos contra não humanos (e alguns humanos também) no geral não são vistas como algo importante, fomos ensinadas a naturalizar as opressões. Não se come carne apenas pra “encher o bucho”, se come carne porque a cultura carnista diz que alguns animais podem ser assassinados para “encher o bucho”. Uma alimentação sem ingredientes de origem animal é infinitamente mais em conta. Feijão, arroz, batata doce, macaxeira, farinha, banana comprida, jaca, inhame, amendoim, são baratos, saciam e são de fácil acesso para a maioria das pessoas. A cultura que impõe a carne como base para comer com todas essas coisas e a mesma que sequestrou os conhecimentos populares a cerca de uma alimentação mais autônoma. “Vou comer puro?” essa frase muito comum no nordeste do Brasil, reflete desejo por cadáver e não fome por si só.

arroz, macarrão, alface, cenoura e batata cozidas, couve e tomatinho

feijão preto, arroz, vinagrete, purê de jerimum e farofa

feijão macassar, vinagrete, arroz e casca de banana refogadas

A dificuldade/limitação na rotina pra ressignificar práticas tão importantes quanto a alimentação, principalmente pra mães solteiras e pessoas confinadas em trabalhos precarizados existe e representa a realidade da maioria das pessoas negras. Mas que tal falar sobre a cervejada com sarapatel ou passarinha? E o galeto acompanhado de arroz, feijão, maionese e farofa? E a tripa assada, tira gosto da cachaça? E as buchadas que levam bastante tempo pra serem preparadas? E o “eu sou carnívoro gosto de carne mesmo”? Muita gente que usa a pobreza como exemplo pra não repensar os próprios atos, têm como optar sim, a não ser que elas sejam aquelas em situação de rua sem condições de negar comida de doação, muitas vezes comendo papelão puro, sem ser escondido na carne, ou mesmo as que cheiram cola pra enganar a fome. É lamentável que toda a informação sobre comida vegana que vocês têm tá lá no cartaz da gourmeteria com uma versão de hambúrguer de cogumelos albinos da melanésia colhidos por duendes tailandeses virgens em ano bissexto. Veganismo é sobre ética política, não sobre poder de consumo e dieta, da mesma forma que existe salsicha e carne moída com papelão, existe carne de vitela, foie gras e caviar, não esqueçam disso.

Práticas populares não é só comprar sardinha, salsicha, mortadela e fiambre, é também comer feijão, farinha e banana e catar vegetais na feira que vão pro lixo, porque a produção industrial de alimentos se baseia no desperdício, eu to falando daqueles mesmos que muitos de vocês escolhem não comer porque tem nojinho. Isso garante uma enorme quantidade de alimentos vegetais sem absolutamente gastar nenhum dinheiro e é muito mais saudável e ético do que carne podre, papelão e cabeça de porco. Enquanto vocês passam pano pra cultura carnista e falam estupidamente sobre escolher o que comer, que tal escolhermos resgatar uma parte do conhecimento popular, campesino, quilombola e indígena apagado pelo agronegócio sobre os matos que nascem como erva daninha, nas construções e nos terrenos baldios que tem potencialidade alimentícia? É importante e urgente apontar elitismo e racismo dentro do veganismo e ir contra veganes liberais universalistas que acreditam ser melhores e mais justos que a massa pobre e ignorante, mas reduzir a crítica antiespecista à esta experiência de classe é oportunista e cúmplice dos efeitos da alienação industrial.

vegetais reciclados, descartados por feirantes com destino no lixo.

Os carnistas que tem poder de escolha e que mesmo assim buscam justificar suas práticas especistas utilizando os pobres como argumento, não lembram deles quando financiam a pecuária. Para esta atividade manter-se, inúmeros territórios sagrados indígenas são usurpados, invadidos e expropriados, exterminando animais silvestres e empurrando pessoas para a miséria. Cerca de 70% da superfície agrícola pertence à criação de animais e grande parte dos alimentos super nutritivos como arroz, milho, soja, aveia e o trigo não são usados para alimentar pessoas que estão em condição de miséria, morrendo de inanição sim para alimentar e engordar animais.

pobres e pessoas negras das periferias urbanas que não tem água na torneira também são invisíveis ao fato de mais da metade da água potável do mundo ser destinada à pecuária. 15 mil litros de água pra produzir apenas 1kg de carne. Qual carnista lembra da pobreza nessas horas? Se lembrasse e se importasse de fato, refletiria sobre o carnismo, pois o agronegócio além de racista é indiscutivelmente violento com pobres. Usam pobre como escudo, mas bem, quem come exclusivamente vegetais e se nega em colaborar com essa necropolítica é que é elitista e que pode escolher o que comer.

* Este texto contém contribuições de Talu Vieira e Mel Bezerra com revisão da Dhuzati

NÃO MATE ANFISBÊNIAS

Nascida e criada espontaneamente nos canteiros de casa, essa espécie de réptil alimenta-se de pequenos bichinhos como vermes e insetos – cupins, larvas, lagartinhas e, claro, as temidas formigas roçadeiras. Como? Considerada uma exímia escavadora, a espécie utiliza a cabeça em forma-de-pá para abrir verdadeiras galerias que vão de encontro aos formigueiros das inimigas nº 1 de todx jardineirx: as formigas de roça ou cortadeira. Deduz-se que esses répteis têm um papel ambiental tão importante quanto o das minhocas, pois, ao cavar a terra do seu quintal ou jardim, contribuem para a penetração da água e do ar no mesmo, favorecendo o desenvolvimento da vegetação.

Portanto, se você encontrar uma anfisbênia, (cobra de duas cabeças existe, e não é ela) em seu jardim, não mate: grite, corra para a montanha mais próxima ou suba no lugar mais alto. Isso ajuda a aliviar a tensão. Desmaios não são seguros. Brincadeiras à parte, ao contrário do que muitos imaginam, a anfisbênia não é uma cobra nem possui duas cabeças – tem só uma mesmo. Não é cega – possui dois pequenos olhos cobertos por escamas – e tampouco é venenosa. Ela morde somente se provocada. Seu instinto de defesa é enrolar-se ou debater-se. Em alguns casos ela perde parte da cauda – fato que acontece uma única vez pois a mesma não se regenera como a lagartixa.

A semelhança externa com as serpentes, aliada à crença popular (incorreta) de que são perigosos, faz com que esses animais inofensivos sejam sumariamente exterminados quando emergem de suas galerias encharcadas após a chuva, ou quando são trazidos a tona pela enxada ou arado. Com informações de Allyne Dayse Macedo

Higiene – Limpeza e Lavagem Cerebral

29ae00“A característica notável restante de “Che” é a sua sujeira. Ele odeia se lavar e nunca o faz. Ele é imundo, mesmo pelo padrão de limpeza mais baixo comum entre as forças de Castro na Sierra Maestra. De vez em quando, “Che” leva alguns de seus homens a um riacho ou açude, para que ele possam se lavar. Nessas ocasiões, “Che” nunca se lava ou a suas roupas, mas senta na margem e assiste os outros. Ele é realmente excepcionalmente e espetacularmente sujo.”

― descrição ofensiva de Ernesto “Che” Guevara do dossiê de 1958 da C.I.A.

Até nos círculos alternativos mais radicais, é surpreendente como ouvimos alguém reclamar de pessoas que eles chamam de “hippies” ou “punks sujos”. “Esses punks sujos vieram aqui e deixaram o lugar todo fedendo”, costumam dizer. Que crime tão grave essas pessoas cometeram para serem tão vilificadas? Eles têm um orientação distinta da nossa na questão da “limpeza”.

hip_bath_victorian_woman_t-1A propósito, de onde vêm nossas ideias e valores da chamada “limpeza”? A civilização ocidental tem uma longo histórico de associar limpeza a bondade e ao mérito, melhor resumida pela velha expressão “a limpeza está próxima da Divindade”. Em peças de teatro da Grécia antiga, pessoas más e espíritos ― as Fúrias, por exemplo ― eram frequentemente descritos como sujos. As Fúrias eram sujas, velhas e fêmeas, exatamente o oposto de como o escritor que as descreveu se via; a sua sujeira, entre outras coisas, as identificava como excluídas ― como estranhas, animais, desumanas. Com o tempo, a limpeza se tornou uma medida com a qual os mais ricos se separavam dos pobres. Aqueles que possuíam riquezas e poder necessários para se permitir ficar dentro de casa, inativos, faziam graça dos camponeses e viajantes cujos estilos de vida envolviam sujar suas mãos e seus corpos. Através da nossa história, podemos ver que a limpeza foi usada como um padrão de valor por aqueles com poder para atribuir status social ― e logo, os “próximos a Deus”, os auto-proclamados sagrados que ficavam sobre o resto de nós na sociedade hierárquica, proclamaram que a sua limpeza, comprada com o esforço dos outros forçados a trabalhar para eles, era uma medida de sua “Divindade” e superioridade. Até hoje, aceitamos esta crença tradicional: que ser “limpo” de acordo com as normas sociais é desejável por si só.1940-10-20-gessy-sabonete-rainha-coroa2Deve ter ficado claro através da história de nossas idéias sobre “limpeza” que qualquer crítico aos valores aceitados em grande escala, qualquer radical ou roqueiro punk, deve suspeitar muito de grandes valores atribuídos a ficar “limpo” de acordo com os padrões tradicionais. Além disso, o que exatamente significa “limpo”?

Hoje em dia, a limpeza é mais definida por corporações vendendo “produzos de limpeza” do que por qualquer outro motivo. É importante manter isto em mente. Certamente, a maioria destes produtos tem uma capacidade fantástica de atravessar o pó e a sujeira naturais ― mas remover a poeira e sujeira naturais com químicos sintéticos constitui necessariamente na única forma aceitável de sanitização? Ficamos pelo menos tão assustades por estes produtos artificiais fabricados, como ficamos com um pouco de poeira, lama, suor, ou (deus nos livre!) uma mancha de comida ou sangue nas nossas camisetas? É importante saber de onde vem a “sujeira” e do que ela é feita!

A idéia de que vale a pena usar químico34e4bb41d288d10212a5fd53babff230s (quer sejam desodorantes, detergentes ou xampus) para erradicar sujeira orgânica também possui algumas implicações assustadoras. Primeiro, ela apóia a velha superstição cristã de que o corpo biológico é vergonhoso e deve ser escondido ― que nossos corpos e nossa existência como animais no mundo físico são intrinsecamente revoltantes e pecaminosas. Estes valores têm sido usados para nos manter inseguros e envergonhados, e, por conseqüência, à mercê dos padres e outras autoridades que nos dizem como ficar “puros”: antes, nos submetendo à sua divina negação do ser, e agora, gastando boa parte do nosso dinheiro em vários produtos de “higiene” que eles querem nos vender. E também, enquanto o capitalismo transforma todo o mundo de orgânico (florestas, pântanos, desertos, rios) para o inorgânico (cidades de aço e concreto, bairrossoap-ad de asfalto e gramados aparados, terras que foram limpas de todos seus recursos naturais, lixões), a idéia de que tem algo que é mais valioso em químicos sintéticos do que na sujeira natural implica que essa transformação possa ser uma boa coisa… e conseqüentemente justifica implicitamente a destruição do nosso planeta motivada pelo lucro.

Na verdade, estas corporações estão muito menos preocupadas com a nossa saúde e limpeza do que estão em nos vender seus produtos. Elas se utilizam do alto valor que damos à higiene para nos vender todo tipo de produto em seu nome. Quem sabe quais são os efeitos reais, de longo prazo desses produtos à nossa saúde? Sabemos que coelhos são violentados e expostos a deterioração de suas visões para que xampus e outros produtos de limpeza possam ser considerados seguros a seres humanos, por exemplo? Eles não se importam com nada disso. Se nós algum dia ficarmos doentes por usar seus detergentes especiais e xampus de alta tecnologia, ele podem nos vender outro produto ― remédios ― e manter as rodas da economia capitalista girando. E a vergonha de nossos corpos (pocoelho_testes_001r serem produtores de suor e outros fluídos naturais que consideramos “sujos”) que eles capitalizam para vender outros produtos que dependem da nossa insegurança: produtos para dietas, produtos para exercícios físicos, roupas da moda, etc. Quando nós aceitamos a definição de “limpeza” do capitalismo estamos aceitando a sua dominação econômica sobre nossas vidas.

Mesmo que elas concordem sobre a natureza questionável dos produtos de higiene de hoje, a maioria das pessoas ainda argumentariam que a higiene ainda é mais saudável que a sujeira. Até algum ponto isto é verdade ― provavelmente é uma boa ideia lavar o seu pé se você pisar em cocô. Mas além de casos óbvios como esse, existem milhares de padrões diferentes do que é limpo e o que é sujo ao redor do mundo; se você observar diferentes sociedades e civilizações, você vai se deparar com práticas de saúde que parecem suicidas pelos nossos padrões sanitários. E ainda assim, estas pessoas sobrevivem tão bem quanto nós. Povos na África alguns séculos atrás viviam confortavelmente num ambiente natural que destruiu muitos dos exploradores ocidentais mais asseados e polidos que vieram ao seu continente. Seres humanos podem se adaptar a uma grande variedade de ambientes e situações, e parece que a questão sobre quais tipos de sanitização são saudáveis é, pelo menos, tanto uma questão de convenção como de regras gravadas biologicamente. Tente violar alguma das regras do “bom senso” da higiene Ocidental alguma vez: você descobrirá que tirar comida do lixo e passar algumas semanas sem tomar banho não é tão perigoso ou difícil quanto lhe ensinaram.

abrir-numa-duplaTalvez a questão mais importante quando tratamos do valor pouco comum que damos à “limpeza” tradicional é o que perdemos ao fazer isso. Antigamente, antes de disfarçarmos nossos odores naturais com químicos, cada um tinha seu cheiro único. Esses cheiros nos atraíam uns aos outros e nos ligava emocionalmente através da memória e associação. Agora, se você tem associações positivas com o cheiro de alguém que você gosta, provavelmente é o seu perfume (idêntico ao perfume de milhares) que você gosta, não seu cheiro pessoal. E os feromônios naturais com os quais antes nos comunicávamos uns com os outros, e que jogavam uma parte importante na nossa sexualidade, foram agora completamente abafados por produtos químicos padronizados. Nós não sabemos mais o que é ser um ser humano natural,2c88ff8659c9dc6ee5de0f7aa9d515e9 cheirar como um animal de verdade. Quem sabe o quanto perdemos por causa disto? Aqueles que acham nojeira gostar do cheiro e do gosto das pessoas quando não se toma banho ou passa produtos sintéticos no corpo, quando se cheira como um ser humano de verdade, são provavelmente os mesmos que tremem ao pensar em arrancar um vegetal do solo e comê-lo ao invés do lanche feito pelo homem e enrolado em plástico que todos crescemos comendo. Nós ficamos tão acostumados com a nossa existência domesticada, projetada que nós nem sabemos o que estamos perdendo.

Então tente ter a mente mais aberta quando se tratar dos “sujinhos”. Talvez eles apenas cheirem mal porque você nunca teve a chance de descobrir como cheiram os seres humanos de verdade; talvez tenha algo de valor em “não se lavar” que você ainda não percebeu. A moral desta estória é a moral de toda estória anarquista: aceite somente as regras e valores que fazem sentido para você. Descubra o que é certo para você e não deixe ninguém lhe dizer que não ― mas também, se esforce para entender o que motiva os outros, e avaliar as suas ações pelos seus próprios padrões, e não de acordo com alguma norma padronizada.

capitalistasdesoTexto retirado do livro Dias de Guerra, Noites de Amor
Ed. Deriva, 2010
Tradução: Protopia
Disponível na web pelo link: http://pt-br.protopia.wikia.com/wiki/Dias_de_Guerra,_Noites_de_Amor