NÃO MATE ANFISBÊNIAS

Nascida e criada espontaneamente nos canteiros de casa, essa espécie de réptil alimenta-se de pequenos bichinhos como vermes e insetos – cupins, larvas, lagartinhas e, claro, as temidas formigas roçadeiras. Como? Considerada uma exímia escavadora, a espécie utiliza a cabeça em forma-de-pá para abrir verdadeiras galerias que vão de encontro aos formigueiros das inimigas nº 1 de todx jardineirx: as formigas de roça ou cortadeira. Deduz-se que esses répteis têm um papel ambiental tão importante quanto o das minhocas, pois, ao cavar a terra do seu quintal ou jardim, contribuem para a penetração da água e do ar no mesmo, favorecendo o desenvolvimento da vegetação.

Portanto, se você encontrar uma anfisbênia, (cobra de duas cabeças existe, e não é ela) em seu jardim, não mate: grite, corra para a montanha mais próxima ou suba no lugar mais alto. Isso ajuda a aliviar a tensão. Desmaios não são seguros. Brincadeiras à parte, ao contrário do que muitos imaginam, a anfisbênia não é uma cobra nem possui duas cabeças – tem só uma mesmo. Não é cega – possui dois pequenos olhos cobertos por escamas – e tampouco é venenosa. Ela morde somente se provocada. Seu instinto de defesa é enrolar-se ou debater-se. Em alguns casos ela perde parte da cauda – fato que acontece uma única vez pois a mesma não se regenera como a lagartixa.

A semelhança externa com as serpentes, aliada à crença popular (incorreta) de que são perigosos, faz com que esses animais inofensivos sejam sumariamente exterminados quando emergem de suas galerias encharcadas após a chuva, ou quando são trazidos a tona pela enxada ou arado. Com informações de Allyne Dayse Macedo

Ocupe Campo-Cidade e a abertura de novos caminhos políticos de resistência

11053047_474650339348618_3847139689857826946_nNo último dia 12 enquanto várias cidades do país estavam imersas em marchas direitistas contra a corrupção, o Movimento Ocupe Estelita em conjunto com o Centro Sábia, MST, Núcleo de Agroecologia e Campesinato da UFRPE e Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Comércio Informal do Recife, organizaram o Ocupe Campo-Cidade, evento que marca a prioridade do movimento em focar no questionamento político articulado com lutas de perspectivas populares.

A Dhuzati compareceu no evento com a associação Agroflorestal Terra e Vida, realizando mais uma parceria exitosa propagando fazeres autônomos e possibilidades alimentícias não convencionais de forma artesanal e agroecológica. Também foi neste evento que publicamente apresentamos a Empório das Rosas, que representa o desmembramento de nossa linha de higiene, e agora toma vida própria como cooperativa familiar.

Compondo nossa banca com materiais da Editora Deriva, Dystro Disca e Empório das Rosas nos posicionamos juntas com Mimi Cozinha e Um Lugar, firmando espaço com um grande bloco de produção alimentícia artesanal e autônoma, mostrando a possibilidade de práticas de solidariedade e mutualidade entre coletividades que realizam fazeres similares, não criando espaço para a competição, concorrência e outros valores pregados pela cultura capitalista. Esta experiência foi um sucesso e nos levantou a possibilidade de articular outros fazeres políticos em breve.

O ocupe contou com várias rodas de diálogo, diversas oficinas e espaço para debate com exposição de diversas perspectivas políticas. Ao associar-se com lutas urbanas de cunho de popular e com lutas do campo em perspectiva política combativa, o movimento evidencia um amadurecimento e assume o real foco político em detrimento da preferência à discussão técnica, institucional e legalista. A Dhuzati entende este trânsito como algo extremamente necessário a qualquer tipo de agitação política e crê que resultados e êxitos de cunho emancipatórios só serão possíveis a partir da radicalidade do discurso político fundamentado no protagonismo político e empoderamento social dos setores menos privilegiados na estrutura capitalista.

É com bastante entusiasmo que saudamos este novo ciclo do Movimento Ocupe Estelita, com a certeza de estaremos sempre dispostas e flexíveis a desconstruir os imperativos hegemônicos e institucionais que insistem em se perpetuar nos nossos fazeres políticos e sobretudo a construir a partir de uma relação de apoio mútuo, horizontalidade e organização em rede, novos cenários e possibilidades emancipatórias, autônomas, ecocêntricas e radicais hoje.

“Usando este espaço para priorizar pessoas em situação de vulnerabilidade social, que têm urgência por moradia, pela perspectiva da autonomia e da agroecologia, inevitavelmente abraçaríamos propostas de vivências culturais horizontalizadas e um ambiente de sociabilidade que permitiria a troca de experiências e de conhecimento pelas ações práticas.

Uma realidade onde uma comunidade produz seu próprio alimento e beneficia o excedente; domina práticas de construções ecológicas; produz materiais e tecnologia a partir de iniciativas artesanais; garante às pessoas de fora da comunidade a apropriação dos espaços coletivos para a realização de atividades; organiza cooperativas de consumo fundamentadas na produção interna, estando aberta para produções artesanais externas; baseada num sistema de organização coletiva que garanta a equidade entre os seres, certamente virá acompanhada de inúmeras performances culturais, artísticas, poéticas e cinematográficas para celebrar e exaltar a liberdade vivida e para serem compartilhadas e apreciadas em público.”

Cidades: um conceito vital para o capitalismo – Dhuzati Coletiva Vegetariana Artesanal

10298920_474650346015284_3139464200561454345_n 10360363_474650262681959_390160662364450973_n VLUU L200  / Samsung L200  10408920_474650799348572_8049066015827516889_n 11137113_474670679346584_6268583870168133955_n 1618455_474670739346578_8779953235975457855_n 11147082_474944895985829_7777913484719990091_n 11150218_474945115985807_8849675502972970232_n

Voto crítico: cumplicidade e colaboração com a destruição do meio ambiente e assassinato de populações humanas

Nos últimos dias a imprensa nacional veiculou a notícia que a senadora do PMDB, Kátia Abreu irá assumir o ministério da agricultura no segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff. Fato que não surpreende nem mesmo xs que acamparam a campanha pelo ‘Voto Crítico’, aquelxs que ilusoriamente acreditam ser a estética vermelha capitalista predatória, encabeçada pela Petista, menos danosa que a estética azul (ou verde amarela) capitalista predatória.

durante-cerimonia-dilma-recebe-da-senadora-katia-abreu-presidente-da-conVoto crítico não critica nada, pelo contrário, conserva e prolonga as políticas imperialistas e genocidas do Estado brasileiro. O clima de desespero antidireita como campanha estratégica do PT, impôs a tomada de uma posição política que impede e ignora a emergência e a legitimidade de construções políticas autônomas e organização social alheia a hierarquia do sistema político moderno.

Não seguir as regras do jogo dos poderosos é no mínimo uma ação contestadora mais digna do que ignorar as violências cometidas pelos governos petistas, advogando pela sua continuação com a ousadia de justificar isto com a alcunha ‘crítico’.

“Enquanto ficamos perpetuamente analisando ‘a conjuntura’ nunca vamos trazer nada que não seja um jeito novo de repetir o velho.”

Algo novo justo social e ecologicamente certamente não irá vir das estruturas que delegam a uma latifundiária – que lutou para coibir as ocupações indígenas em terras sagradas – a missão de presidir a política agrícola do país. Esta mesma estrutura, para iludir os setores sociais, coopta movimentos de camponesxs e agroecológicos, num claro exercício de favorecer através de políticas públicas, ações paliativas e irrisórias, que não agem diretamente no cerne do problema: a abolição de um sistema colonial capitalista e patriarcal baseado no domínio e posse privada da terra para executar enormes plantações de grãos transgênicos, regados com agrotóxicos, plantados em latifúndios quimicamente alterados por fertilizantes industriais, que servirão para exportar e alimentar animais assassináveis, além de base para diversos produtos entalados cheios de compostos químicos – elaborados criteriosamente para dar melhor sabor, odor e aspecto – a serem vendidos em supermercados, substituindo os alimentos naturais, e anunciados pelos meios de comunicação corporativos como saudáveis, apetitosos e fascinantes.

Por fim um pequeno recado a pessoas e movimentos sociais apoiadores da campanha petista:

Ao menos, quando as novas tragédias ambientais e o genocídios forem anunciados se sintam cúmplices, afinal, o sangue da população indígena e camponesa estará com a marca de suas impressões digitais.

Ps.: Para ver o vídeo basta clicar no ícone ao lado do ‘https://’, na barra de endereços, para autorizar o acesso

Jiló o primo africano do tomate.

4219634139_06f09101a7_bSabia que tem jiló aqui no nordeste? e digo mais… orgânico, sem agrotóxicos, livre de modificação genética e produzido pela agricultura familiar. Sabemos bem o desprezo que este fruto sofre das pessoas em geral, mas queremos deixar bem claro que isto é deveras injusto.

O jiló é conhecido pelo seu amargor, mas assim como a berinjela você pode eliminá-lo realizando um pequeno procedimento antes da preparação!

Em parceria com a Feira Agroecológica Chico Mendes, que acontece na Praça de Dois Irmãos, realizamos este pequeno material com receitas básicas de como preparar o patinho feio das Solonaceae, família que agrega tanto a berinjela, quando o tomate. Então já sabe, se quiser testar algumas destas receitas é só ir até a feira, procurar a banca do queridão Estrela e pegar seus jilós orgânicos e fresquinhos, A Feira Agroecológica Chico Mendes acontece toda quarta das 6h às 12h.

Confira o material com as receitas neste link: http://issuu.com/dhuzati/docs/jilo/1Captura de tela inteira 17092014 135641.bmp017

 

Cidade: Um conceito vital para o capitalismo

Recife,_Pernambuco_(2)_-_BrasilEm tempos de crise ecológica, questionamento da democracia enquanto sistema político coerente e emergência de experiências políticas anti-hierárquicas e coletivistas não é suficiente pensar um projeto de cidade sem dar prioridade ao protagonismo político das pessoas e principalmente, sem se comprometer com a garantia de necessidades básicas com autonomia e liberdade, livres das imposições de mercado e das regulações do poder público.

Alimentação, Saúde e Moradia são campos básicos e elementares. Comunidades que convivem com crise alimentar, epidemias de patologias ou que estão em situação de rua e desabrigadas, voltam suas lutas em torno destas questões, pois elas estão diretamente ligadas à sua sobrevivência.  A luta pela moradia nas cidades é equivalente a luta pelo direito a terra no campo, pois ambas almejam projetos políticos de caráter comunitário e coletivistas e são brutalmente reprimidas pelas armas do Estado e invisibilizadas pelo fetiche da vida consumista urbana.

A crítica a partir do conceito de classes, neste momento, objetiva visibilizar a urgência das pessoas que vivem de modos indignos e inimagináveis para pessoas que sempre tiveram acesso à moradia, alimentação garantidos.

Solidariedade, apoio mútuo e construção coletiva não são possíveis sem reconhecimento de privilégios. Um projeto politicamente justo, que considere as pessoas em toda sua diversidade de classe, étnica, sexual e cultural deve priorizar pautas básicas e urgentes como acesso à moradia e alimentação, bem como pensar sua execução fundamentadas a partir de iniciativas ecológicas e não predatórias como a permacultura e a bioconstrução, além de conter ações que viabilizem a autonomia alimentar, através de hortas urbanas, beneficiamento de alimentos e cooperativas de consumo, promover uma educação que colabore com as demandas da agricultura familiar urbana, da organização artesanal e visem a utilização e geração de tecnologias limpas para obter energia.

As discussões urbanísticas sobre a cidade, infelizmente, ainda são elogios ao concreto e uma exaltação à vida urbana capitalista segregadora. Pensar um espaço geográfico como cidade e não considerar os preâmbulos que configuram este conceito é absolutamente incompatível com um discurso que diz ser voltado para as pessoas. A discussão sobre reforma urbana não aborda a hostilidade com os que não atendem a normatização estética capitalista e aos que não a legitimam. Lutar por uma cidade para as pessoas, é inevitavelmente, lutar pelas pessoas que compartilham de uma ideia elitista e segregadora e por um modo de vida análogo a escravidão.

NOSSOS SONHOS NÃO CABEM EM SUAS URBES
Isto está longe se ser uma apologia à vida no meio rural, seja em sua forma positivada – idílica e romantizada – ou na forma “realista” – por efeito das forças políticas dominantes que definem o que é o “real”. O que chamamos de “rural” é apenas o resultado da formatação, da redução das paisagens, relevos e biomas pela política espacial urbanocentrica capitalista, em áreas de extração de recursos e alimentos. O ruralismo é uma política que serve à urbanicidade. Esta política se coloca de forma que tudo (e todos) que não é urbano seja reduzido a simples reserva de matéria prima (e mão de obra) a ser (constante e eternamente) explorada em favor da vida nas cidades.

f5f52dcee09db3a97ee77294fd175d64Se posicionar contra o urbanocentrismo não implica também em uma refutação a tudo quanto exista no meio urbano. Mas passa por entender que as cidades se tornaram locais estratégicos para  relações e práticas que sequestram as necessidades de seres humanos em nome do progresso das  corporações. Este entendimento implica em reconhecer o caráter de dependência das pessoas nos campos da moradia, saúde e alimentação, que dentro no meio urbano são impedidas de terem o controle autônomo a nível individual e comunitário, ou seja, para garantir boas condições de moradia, saúde e alimentação, alguém precisa lucrar muito com isto.

Com a divisão urbano/rural sendo incontestável, a ideologia da cidade alcançou a pretensão de englobar (e se sobrepor a) todas as diferenças. É justamente no meio urbano guiado pelo princípio dogmático do crescimento econômico infinito, o contexto em que o capitalismo se mostra mais “desenvolvido”.

A naturalização da urbe é constantemente produzida e reforçada pela máquina capitalista de administração de desejos. Seu poder é tão grande que,atualmente, poucas pessoas conseguem perceber as formas mais ostensivas de controle e dependência a que estão submetidos nas grandes cidades. Obrigados a consumir bens, serviços e comodidades produzidas por corporações, submetidos a instituições estatais que sobretaxam cada aspecto de suas vidas, muitos estão condenados a uma vida de dependência do trabalho assalariado. Positivado e cultuado (e não apenas entre os “burgueses”) o trabalho assalariado nada mais é do que uma forma sofisticada de escravidão por dívida. A maior parte das funções assalariadas são tediosas e desgastantes. Boa parte se dá em ambientes quase totalitários, uma vez que no capitalismo a ilusão democrática jamais deu o ar de sua graça na organização dos grandes meios de produção.

GENTRIFICAÇÃO

vilabrandaoCabe aqui pensar nos aspectos políticos do que reproduzimos inconscientemente, apenas por estarmos em locais políticos pré-determinados. Não podemos ser ingênuos e não acreditar que uma experiência de classe, por exemplo, pode moldar nossas visões e nos cegar para questões que são mais latentes em classes distintas. A segregação social imposta brutalmente pelo sistema capitalista e pelo Estado almeja isso: distância política como elemento fundamental para não sensibilizar as pessoas, fazendo com que os setores sociais não solidarizem-se entre si.

Entende-se por gentrificação o fenômeno que revitaliza uma região ou bairro valorizando-a economicamente e afetando ou excluindo a população de baixa renda local. As formas de gentrificação agregam, comumente, a inclusão de novos pontos comerciais, construção de edifícios e espaços culturais. O reordenamento urbano traz consigo um aumento dos custos de bens e serviços dificultando a permanência de antigos moradores de renda insuficiente para sua manutenção no local, cuja realidade foi alterada.

Este processo interessa sobretudo aos políticos em geral, às grandes corporações, aos promotores culturais, artistas e aos planejadores urbanos. Esse modelo de mão única, realiza uma limpeza social e cultural nas áreas urbanas “degradadas” para torná-las novamente atraentes ao mercado através de mega-equipamentos culturais.

A gentrificação passou a constituir-se como estratégia urbana crucial aos interesses do desenvolvimento capitalista, tendo se generalizado por cidades de todo o mundo. É certo que essa evolução evidencia-se de diferentes formas, em diferentes bairros e cidades, contudo, em termos gerais, podemos dizer que para que haja gentrificação é necessário:

1) uma reorganização da geografia social urbana, com substituição, nas áreas centrais da cidade, de um grupo social por outro, de estatuto mais elevado, seja pelo viés da habitação ou da circulação;
    
2) um reagrupamento espacial de indivíduos com estilos de vida e características culturais similares;

3) uma transformação do ambiente construído e da paisagem urbana, com a criação de novos serviços e uma requalificação residencial que prevê importantes melhorias arquitetônicas;

4) por último, uma mudança da ordem fundiária, que, na maioria dos casos, determina a elevação dos valores fundiários e um aumento da quota das habitações em propriedade.

Em Recife, as comunidades de Brasília Teimosa, Bode e Encanta Moça, no entorno do Cais José Estelita, passam por este processo de maneira mais acelerada, impulsionadas sobretudo, pelos empreendimentos financiados por João Carlos Pães Mendonça.

especulação imobiliaria

No Rio de Janeiro, o Porto Maravilha, na região portuária da cidade, desencadeia ações gentrificadoras de revitalização e desalojo a partir da construção de espaços voltados para o turismo e o consumo cultural midiatizado, ambos ligados às indústrias culturais, às artes, à publicidade, ao design, à moda, à cultura, imagem e marketing, arquitetura e decoração, entre outras, sob justificativa da preservação histórica e material da cidade. O consumo ou apreciação das atrações e espetáculos trazidos por estes espaços pressupõe uma educação mais globalizada e uma vivência cosmopolita não acessível a setores que tem urgências básicas como moradia, alimentação e saúde por exemplo.

Os chamados projetos mistos que prevê à adesão de moradias populares e espaços culturais, coloca a população marginalizada em loco distinto dos consumidores de cultura, pois estes, em síntese, reivindicam o acesso a uma cultura urbana propagada pela convergência das múltiplas informações midiáticas (TV a cabo, smartphones, internet, cinema e revistas especializadas), pelo desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação e pelas novas tendências produzidas por uma elite artística que não necessariamente se interessa pelo o cotidiano, dinâmicas, narrativas e produção de cultura dos setores mais populares.

CULTURA, AUTONOMIA E HORIZONTALIDADE
Recife, como importante polo turístico no Brasil, possuí uma grandiosa gama de espaços culturais geridos por bancos e órgãos públicos, instituições, que por sinal, lucram muito com todo processo de higienização e gentrificação das cidades.

Estes espaços se definem como públicos e oferecem à sociedade atrações na maioria das vezes gratuitas ou a preços acessíveis.

Contudo, o caráter público destes espaços não necessariamente transforma-os em populares, na realidade, acabam não sendo atraentes para as pessoas que estão fora dos nichos universitários e artísticos. Ainda na cidade, existem espaços culturais e pontos de cultura  populares que por sua vez não atraem, com suas significativas exceções, a classe média. Espaços culturais consumidos pelos setores não populares na periferia, comumente são os que agregam valor a partir da tradição e remontam à uma identidade regional local construídas a partir dos processos de espetacularização e bairrismo fomentados pelo Estado.

Considerando esta premissa é importante pensar a direção dos projetos referentes ao Cais José Estelita levando em prioridade a troca e a vivência cultural a partir da construção de moradias populares autônomas e sustentáveis, que foquem na soberania e autonomia alimentar com hortas urbanas agroecológicas, cooperativas de beneficiamento de alimentos e de consumo; construções elaboradas com técnicas de permacultura e bioconstrução, onde as pessoas poderiam protagonizar o levantamento de suas residências, espaços coletivos, centros produtivos e sistemas sanitários possibilitando não só a apropriação de conhecimentos técnicos e filosóficos mas sobretudo a propagação de formas alternativas de ocupar o espaço urbano ecologicamente coerente e contrárias a indústria da construção civil, mentora estrutural do Projeto Novo Recife.

Usando este espaço para priorizar pessoas em situação de vulnerabilidade social, que têm urgência por moradia, pela perspectiva da autonomia e da agroecológica, inevitavelmente abraçaríamos propostas de vivências culturais horizontalizadas e um ambiente de sociabilidade que permitiria a troca de experiências e de conhecimento pelas ações práticas. Uma realidade onde uma comunidade produz seu próprio alimento e beneficia o excedente, domina práticas de construções ecológicas, produz materiais e tecnologia a partir de iniciativas artesanais, garante às pessoas de fora da comunidade a apropriação dos espaços coletivos para a realização de atividades e organiza cooperativas de consumo fundamentadas na produção interna, e aberta para produções artesanais externas, baseado num sistema de organização coletiva que garanta a equidade entre os seres, certamente virá acompanhada de inúmeras performances culturais, artísticas, poéticas e cinematográficas para celebrar e exaltar a liberdade vivida e para serem compartilhadas e apreciadas em público.

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Referências: