O trágico fim do coronel que era ambicioso demais

Eduardo Campos morreu de forma tão trágica e inesperada que nem a obra mais sádica contra sua pessoa conseguiu reproduzi-la em tempo hábil – ele já andou ‘morrendo’ em um curta-metragem e também ‘ameaçado a mão armada’ em uma obra de arte – só para começar.

A revista britânica ‘The Economist’ o classificou como uma “versão moderna de coronel”. “gerente moderno que ao mesmo tempo é um chefe político antiquado”, chamado pela revista de “ambicioso”.

Foi com o discurso de “gerente” baseado em infraestrutura, educação e investimento privado que o permitiu se reeleger em 2010, e que seu partido se saísse bem nas eleições municipais de 2012. Ele (Campos) na época era aliado da presidente Dilma.

De lá pra cá decidiu então que seria presidente do Brasil, e inventou uma tal de “nova política” que ninguém entedia direito o que era, alguma coisa misturada com Jarbas Vasconcelos nepotismo e hipocrisia, mas que ele acreditava serem bons valores.

Para nós aqui pobres mortais sobreviventes do gás lacrimogênio, dos desalojos, das políticas desenvolvimentistas, só nos resta a perplexidade de observar como a vida é frágil, seja qual for sua posição social, seja qual for sua ambição de vida, a morte nos deixa todos iguais.

Adeus!

Fonte: Mídia Ninja PE (com alterações)

o_ditador_eduardo_campos

Reflexões do jornalista Rodrigo Almeida sobre a atividade realizada pela Dhuzati no #OcupeEstelita

Nesta quarta, realizamos uma roda de diálogo no #ocupeestelita que objetivava comparar a lógica política dos conjuntos habitacionais com as dos campos de concentração para pensar ocupação territorial a partir da autonomia e da soberania alimentar.

Ao ter contato com as impressões do jornalista Rodrigo Almeida sobre as violências implicadas nos processos de ocupação das cidades, resolvemos compartilha-las para ampliar e prolongar mais um pouco o debate

“durante as atividades noturnas do #ocupeestelita, ontem, foram exibidas algumas entrevistas com pessoas transferidas / removidas de diferentes lugares da cidade, especialmente das palafitas de brasília teimosa e da vila vintém, alocadas num conjunto residencial no bairro do cordeiro. a sonhada promessa de “agora você vai ter uma casa!”, no entanto, foi revelando sua faceta hostil: a falta de emprego se tornou generalizada pela distância “do sustento que tiravam do mar” ou “do que sabiam fazer antes”; o conjunto virou o bode expiatório de todos os problemas, de dengue a assaltos, ocorridos na vizinhança burguesa; o cotidiano passou a ser marcado pela convivência diária com uma repressão policial ostensiva, espancamentos, mortes, arquitetando, atrás daquelas paredes úmidas, a impossibilidade de voz e escuta. os moradores sabiam de uma coisa: eles não eram dali.

Nordeste do Brasil, Dezembro de 2009. Northeast of Brazil, December 2009.A realizadora do vídeo e também moradora parte desse processo, comentou sobre o período de mudança e supostas aprovações entre os lados envolvidos, ressaltando a falta de disponibilidade de diálogo com a parceria entre prefeitura, odebrecht e banco do brasil. Os problemas também eram estruturais, parte da rede de esgoto tinha vazado e contaminado a rede de água de alguns apartamentos, os condomínios foram pensados – sem a concordância da comunidade – com pouco espaço de lazer e um amplo e exagerado estacionamento, onde praticamente não existiam carros entre os residentes, espaço que terminou sendo ocupado pouco a pouco com barracos ou pequenas lojas. os entrevistados foram enfáticos em dizer que, apesar de tudo, suas vidas tinham piorado. “aqui não é o lugar para criar os meus filhos”.

essa história me lembrou quando, há uns três anos, visitei a comunidade quilombola ‘negros do osso’, na zona rural de pesqueira, requisitado basicamente para passar três dias conversando com as pessoas e descobrir possíveis personagens para um documentário. a comunidade estava passando por uma grande transformação: o banco do brasil tinha começado a construção de casas de alvenaria no lugar das antigas casas de taipa, iniciativa que a princípio parecia maravilhosa, incontestável, a realização do sonho de “agora vamos ter uma casa”. como não sabia o caminho, encontrei o arquiteto do projeto para irmos juntos e confesso que fiquei cabreiro com o rapaz desde o primeiro contato, pois ele, com bastante pressa, soltou “vamo logo que não quero passar mais de cinco minutos lá”. alguma coisa estava estranha nessa história.

d34d54646a9a808a34d6e9323784b72d1367454795enfim, seguimos e chegamos na comunidade. o profissional convocou alguns moradores para fazer uma visita rápida em duas ou três casas quase prontas, desenvolvendo um discurso bizarro onde ele se colocava como protagonista do processo, quase pedindo uma veneração das pessoas “por ter construído suas casas” (vale dizer que os próprios moradores estavam no papel de pedreiros sob as ordens de um mestre de obras). daí chegamos na cozinha, ele começou a explicar que abriu um vão lá no alto pra ventilar a geladeira… oh, wait… ele, então, parou, olhou por um segundo – e talvez pela primeira vez – para os presentes e perguntou: “vocês têm geladeira aqui?”. os moradores balançaram a cabeça negativamente, ele constrangido acelerou o passo da visita, pegou seu carro e foi embora. depois soube que o rapaz nunca tinha se prestado a conversar com as pessoas que iriam morar nas casas que ele tinha projetado. o vão da geladeira era apenas um detalhe.

depois dessa rede de histórias e lembranças, fiquei matutando antes de dormir que essa situação se repete em todos os lugares: vivemos uma cidade projetada por pessoas que não vivem a cidade ou que pensam a rotina da cidade como meu-condomínio-de-luxo-trabalho-shopping; lidamos com um transporte público desenvolvido por quem não usufrui desse transporte, anda-só-de-carro-e-quer-mais-vias; todos os tais grandes projetos para melhorar a vida da cidade e das pessoas surgem sem que justamente essas pessoas e essa cidade façam parte do processo. a verticalização não está apenas nas plantas, nos edifícios, assombrando a paisagem, mas na forma como as coisas são encaminhadas, decididas, assinadas, implementadas. acredito que o #ocupeestelita além de pontualmente contra a construção do novo recife, surge como uma espécie de levante contra uma lógica muito maior, impulsionando para o núcleo do “pensar a cidade” o antes revogado protagonismo de todos nós, cidadãos.

isso, meus queridos, costuma assustar.”

88346252

Receita de massa de coxinha com recheio de maconha

maconhaplayBem, sabemos que os mais leigos e não tão sintonizados com nossa visão de mundo irão achar meio controverso esta abordagem, por acharem que esta coletiva está associada apenas com a alimentação. Mas antes que qualquer voz ingênua venha nos criticar, avançamos no discurso e dizemos: nosso interesse é pela autonomia e pela liberdade.

E é exatamente por isso que nos posicionamos. Motivades pelo excelente artigo do Recife Resiste sobre a oitava edição da Marcha da Maconha em Recife e pela recente informação que agrotóxicos e fertilizantes químicos estão sendo usados na produção da erva, achamos por bem fazer algumas considerações.

No Brasil a Marcha da Maconha começa a se movimentar em 2002, após um contexto de forte mobilização antiglobalização e a realização do primeiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Nesta conjunura debates sobre uma política horizontal, plural e descentralizada desencadearam a emergência de várias mobilizações políticas que clamavam por novas lógicas de organização, deslegitimação do apanágio legal elitista e contestação ao lucrativo esquema policial genocida. Apenas em 2006 que a Marcha começa a ser realizada sistematicamente por várias cidades do Brasil, entre elas Recife.

Incomodada com a crescente adesão popular, em 2008 várias cidades foram proibidas pela Justiça de realizarem a Marcha, acusadas de apologia ao uso de drogas e formação de quadrilha, sendo Recife, uma das poucas que conseguiu ir as ruas.

Depois de oito edições em Recife, o maior apelo da Marcha agora consiste em legitimar uma política coronelista e mendigar ao Estado a regulamentação do uso terapêutico, industrial, farmacêutico e recreativo da erva, adotando Jean Wyllys, autor do projeto que regulamenta a maconha, como celebridade da vez. Contudo, não esqueçamos que este é o mesmo Estado que anualmente mata milhares de pessoas negras nas periferias e que aplica milhares de reais na compra de armamento, acessórios e tecnologia para destruir plantações e criminalizar usuários. É decepcionante perceber que a inteligência política das pessoas que participam da Marcha não consegue captar que além de lucrativa a proibição investe nas instituições de controle social e repressão. Os terríveis resultados da guerra contra as drogas respingam apenas nas periferias e nos pequenos produtores rurais.

Porém não é nada surpreendente. Para a classe média a quantidade de mortos, a guerra civil instaurada pelo combate ao tráfico, o genocídio da juventude negra e as prisões nas operações militares no sertão não são mais importantes que a liberdade individual e liberal de fumar um baseado com tranquilidade, sem ser importunado pela polícia, seja na compra, seja no consumo. Para esta mesma classe média, que não entende nada sobre a política predatória da produção agroindustrial, mas argumenta as vias da legalização pelo viés da produção, o que importa é obter mais privilégios. Para isso, obedecer a polícia e fazer acordos com as instituições que mais lucram com o tráfico é o caminho básico para obtê-los.

Em Recife a Marcha teve apoio do Governo do Estado, do Ministério Público e do Tribunal de Justiça, órgãos públicos mandantes das diversas violências cometidas pela polícia. Na verdade, este apoio faz parte de uma estratégia de captura das pauta dos movimentos sociais que serve para iludir aqueles que acreditam em mudanças estruturais pela via legal. Eduardo Campos, pré-candidato a presidência da República e um dos maiores financiadores da indústria bélica e de sistema de informação da história de Pernambuco, diz enfaticamente que é contra a descriminalização e a favor de um combate mais efetivo conta as drogas. Segundo Campos, o caminho a ser seguido é por os traficantes na cadeia alimentando a população de meio milhões pessoas confinadas nos presídios brasileiros.

Além de possuir efeitos medicinais a Cannabis tem potencialidade alimentar. Na China antiga era comum usar suas folhas em infusão para incômodos relacionados a prisão de ventre e problemas de menstruação. Nós também acreditamos no efeitos terapêuticos da planta, bem como na riqueza de seu aroma para temperar saladas, molhos e incrementar sucos, mas não a qualquer preço.

A legalização da planta pode abrir precedentes para ampliar diversas tragédias e opressões que já ocorrem no Brasil. A exploração industrial da erva, pode fazê-la matéria-prima para óleos, rações animais, fibras para têxteis, medicamentos patenteados, cosméticos e produtos alimentares, tudo o que atualmente a soja é capaz de fazer. Ao defender a legalização e regulamentação é importante pensar nos territórios indígenas e quilombolas ainda não garantidos e considerar a exploração brutal de mão-de-obra no cultivo agrícola e no processamento industrial. Todas estas questões citadas estão longe de serem resolvidas e provavelmente são ignoradas pela classe média egoísta, que vê na Marcha a oportunidade de reivindicar a facilidade de conseguir um baseado para sua próxima festinha.

Pela luta de uma descriminalização interseccional
Por uma Marcha da Maconha libertária, antiracista, antifascista e anticapitalista