Masala Dosa, Panquecas e Descolonização Alimentar

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Serabi, panquecas da Indonésia

Panquecas (pancake, na língua do colonizador) são uma espécie de pão-bolo que mais vale pelo formato que pela receita. Seus ingredientes variam em cada região e territórios, tendo como base o trigo. Geralmente feita com trigo, óleo vegetal e água, – na versão vegetariana estrita ocidental e chinesa – também pode ser feita com outras espécies de farinha como o teff, originário da Etiópia (passando a chamar Injera) ou com farinha de grãos e leguminosas hidratadas, como na Índia (sendo chamada de Dosa ou Appam).

O que classifica uma panqueca é seu formato fino e redondo, geralmente cozido em assadeira ou frigideira untada a óleo. Por ser de fácil preparo, suspeita-se que esta seja a receita com base cereal mais antiga e difundida desde a pré-história. Com diversos nomes e ingredientes distintos, por perversidade hegemônica alimentar entrou na globalização com um nome homogêneo, que a distancia de uma ancestralidade rica e diversa, aproximando-a da atualidade industrial e venenosa, através das misturas pré-prontas nas quais são acrescentados químicos e sintéticos transgênicos.

Panquecas Macassar, recheadas com salpicão de cenoura e queijo de girassol

Panquecas Macassar, recheadas com salpicão de cenoura e queijo de girassol

Porém, nosso compromisso é com o resgate histórico de receitas que sobreviveram de maneira resiliente e resistente à colonização. E diante deste desafio cotidiano, uma coisa é certa: esta receita prática nos inspira experimentações.

Masala Dosa Tradicional

Masala Dosa Tradicional

Nossa versão pirateada das panquecas são, podemos dizer, pães-torta inspiradas muito mais no Masala Dosa indiano que nas próprias panquecas americanizadas. A partir da receita da Torta de Acarajé fomos experimentando possibilidades dessa massa rica em carboidratos e proteína vegetal que se mostra cada vez mais diversa em suas texturas e formas. A massa do acarajé, nas mãos das bruxas negras da Dhuzati, além de torta, já viraram burguers, falaféls, pizzas até chegarmos nas panquecas que serão oferecidas neste SABAMATA e qual já disponibilizamos a receita.

Utilizando óleo vegetal, água e feijão macassar como base, vamos mostrar que a criatividade é nossa maior ferramenta contra uma alimentação industrial. O Feijão Macassar por si já é nossa bomba alimentar descolonial, na qual em uma quantidade de 100g, são encontradas cerca de 60g de carboidratos e 20g de proteínas. Muito próxima à receita do Masala Dosa, a fermentação – que pode estar presente ou não na receita da panqueca – é produzida naturalmente pelo Macassar quando hidratado. Além, de ser livre do glúten.

Veganismo popular e descolonial em receitas ancestrais, você encontra aqui na Dhuzati.

SERVIÇO:
SABAMATA – Panquecas Macassar
Sábado, 03 de Dezembro, a partir das 12h
Rua da Biblioteca da UFRPE, Casa Lilás
Dois Irmãos

Referências:
http://www.mundoboaforma.com.br/7-tipos-de-feijao-beneficios-calorias-e-informacoes-nutricionais
http://www.alimentacaovegetariana.com/2014/05/um-receita-exotica-vegetariana-e.html
https://en.wikipedia.org/wiki/Pancake#Horn_of_Africa

O s de Sabamata é o mesmo s de SuDaKa

534947_601838703164489_1829305889_nSudaka é um termo usado na Europa criado para estigmatizar pessoas oriundas da América do Sul, com o tempo ele foi sabiamente ressignificado e pirateado se tornando um termo que reflete o empoderamento da comunidade sulamericana em terras xenófobas e colonizadoras. Piratarias a parte, neste sábado pensamos um cardápio com ingredientes nativos ou muito comuns em nossa região, o engraçado é que a partir disso descobrimos muitas curiosidades e nos pilhamos cada vez mais em pensar propostas alimentares vegetarianas (quando lerem vegetarianas aqui no blog, estamos falando de estrito, afinal leite, ovo e mel não são vegetais) populares, com ingredientes de fácil reciclagem em Recife e exatamente por isto de preço muito baixo.

Apesar de Rosti ser uma receita europeia – vale acrescentar que antes da colonização na Europa não existia batatas (e batata doce nem pensar) – ainda assim é bom termos na mente que esta receita tem orgiem popular e fazia parte do desjejum de agricultores da Suíça sendo nada mais que batatas raladas, temperadas, incrementadas e fritas em gordura. Na Espanha também faz um prato parecido que eles chamam de tortillas, a versão vegetariana da iguaria é feita com grão de bico. Tivemos a ideia de pegar a batata doce, tirar um pouco de seu amido, temperá-la, adicionar alguns ingredientes e assá-la no forno com recheio de creme de amendoim. A raiz, nativa dos andes, é super cultivada no brasil, é ótima para a saúde, reduz o índice glicêmico e tem muita vitamina A.

20140226-171840Já o ensopado latino é exatamente o recheio da torta de grão de bico que geral já conhece e adora, desta vez protagonizando nosso querido feijão macassar na base de jerimum com tomate. O cuscuz primavera vem acompanhando estas maravilhas porque o milho recheado com legumes não podia ficar de fora desta festa sudaka. E nossa velha salada panc com ora-pro-nobis, trapoeraba roxa, malvivisco e damiana pra enfatizar a coleta não convencional destruidora na colonização alimentar.

Então já sabem, neste sábado, 13/08 tem veganismo de perspectiva popular com pegada autônoma, protagonizado por pessoas trans inspiradas por ações descoloniais e anticivilizatórias, e isto você só encontra aqui na Dhuzati. Animais não humanos e crianças são muito bem vindas em nosso espaço. Até lá

SERVIÇO:
SABAMATA – Batata Doce Rosti
Dhuzati – Casa lilás da estrada dos macacos, rua da biblioteca da UFRPE
A partir de 12hrs.

Lasanha sem trigo por uma alimentação descolonial

lasanhaberinjelaAqui em Recife, a lasanha é algo muito comum em ocasiões especiais ou nos finais de semana. Várias camadas de massa intercaladas com um recheio saboroso num molho bem suculento é a base mais típica deste prato. Mas o que pouca gente sabe é que apesar da origem desta montagem comestível ser atribuída a Itália, várias comunidades humanas, antes mesmo deste Estado-nação sonhar em nascer, puderam ensaiar, experimentar e degustar o preparo de iguarias seguindo a mesma lógica de camadas e recheios. Sendo assim, nossa proposta é manter viva as experimentações, regando-as com os temperos de nossas vivências, referências e aspirações.

Apesar de usamos trigo integral orgânico, que vem lá do Rio Grande do Sul, estamos cada vez mais empenhadas em preparar alimentos que não tenha o cereal como matéria-prima, e não é por causa da nova moda da indústria alimentícia “glúten-free” (devemos preparar em breve um post sobre isto), mas sim porque na nossa proposta de descolonização alimentar o trigo é um ingrediente tanto quanto controverso, seja por seu consumo está diretamente ligado a revolução que sedentarizou a humanidade constituindo a propriedade privada, a dominação masculina e a domesticação dos animais, seja por ser um alimento chave para indústria alimentícia e por isso ter sido incansavelmente hibridizado, adulterado e geneticamente modificado apenas para fins comerciais.

Voltando em grande estilo ao nosso cardápio a grandiosa lasanha ganha massa de berinjela marinada no sal e limão, junto com o aclamadíssimo molho de tomate artesanal temperado apenas com cebola, vinagre de maçã e manjericão, purê de batata doce acidulado com limão (nossa base do salpicão vegano), mangará bem refogadinho, temperado com alho, gengibre, cenoura e pimentão e aquela ricota inacreditável de gergelim no ponto perfeito para amassar
Arroz integral com temperos leves mais o creme de jerimum super apetitoso e viscoso e a salada de plantas alimentícias não convencionais darão todo o toque final no retorno de inverno do Sabamata. E por falar nele, os fiapos de flores rosas espalhadas no asfalto da cidade vem nos avisar que o jambo tá chegando e com ele sucos e sobremesas sendo especuladas devidamente para brindar nossa vivência de coleta e a propagação da autonomia alimentar.
dsc06924Neste dia 06, temos um encontro marcado nesta reserva de Mata Atlântica em resistência ao capitalismo predatório, esperamos vocês!

SERVIÇO:
SABAMATA – Lasanha de Berinjela
Dhuzati – Casa lilás da estrada dos macacos, rua da biblioteca da UFRPE
A partir de 12hrs.

Feijão Macassar, é muita paixão!!!!

sabama 07 de maioNão é de hoje, que vocês veem nos brincando com diferentes formas de comer o feijão macassar ou fradinho. Diretamente ligado as tradições da cultura afro, além de ser algo bastante abundante no nordeste, esta leguminosa nos chega pelas mãos das variadas populações africanas que foram escravizadas. O acarajé, como já dizíamos por aqui, vem lá da região dos faraós e várias partes do mundo faz jus do principio desta receita mantendo a forma de preparo e a ideia de temperá-lo, mas com leguminosas diferentes.

panquecas6295847912_2b9427ffe4_bA ingestão e cultivo deste tipo de feijão, é presente na realidade de muitas populações rurais do nordeste devido ao seu elevado valor nutritivo, nível proteico e energético e à sua fácil adaptação a solos de baixa fertilidade e com períodos de seca prolongada.

Depois do nascimento de nossa filha, a Torta de Acarajé, que nada mais é que a massa da iguaria assada no forno com algum recheio, percebemos que a textura dela também é ideal pra fazer crepes, panquecas e omeletes. Em Tamil Nadu, na Índia, é comum fazer um doce, chamado kozhukattai, preparado com o grão cozido, amassado e misturado com açúcar mascavo e gordura. No Sri Lanka, há preparos de muitas maneiras diferentes, uma das quais é com leite de coco, mostrando a versatilidade da leguminosa e nos inspirando para experimentá-la de diferentes formas e sabores. Esperamos que contagie você também.

Colheita de feijão macassar, por mulheres camponesas em Ghana

Colheita de feijão macassar, por mulheres camponesas em Ghana

Kozhukattai, preparado na índia

Kozhukattai, preparado na índia, com frutas secas e coco

Mas para além disto tudo nosso prazer e propagar conhecimentos para que eles gerem autonomia e portanto nada mais justo que expor a vocês o preparo das panquecas, o acesso ao feijão é algo extremamente popular e as receitas fáceis de fazer.

1 xícara de feijão macassar
1/3 de xícara de óleo
Cebola, alho e amendoim a gosto (lembrando que quando vai ao fogo ou forno se reduz o sabor do alho e da cebola)
Água

Deixe o feijão de molho por 8 a 12 horas, troque a água quantas vezes achar necessário e ponha os grãos no liquidificador, adicione a cebola, o alho e o amendoim. O segrego é a quantidade de água, quanto mais grossa melhor para assar, mais liquefeita para fazer nossas panquecas. Depois de colocar todos os ingredientes no liquidificador vamos por água de forma que cubra-os deixando 1 dedo de diferença entre a superfície e os sólidos. Lembrando que é bom sempre ter cuidado ao inserir o líquido (neste caso a água) até você chegar no ponto que lhe satisfaça é bom sempre ir pondo aos poucos, é mais fácil acertar quando se erra pra menos.  17795729138_89f64583e9_kQuando estiver aproximadamente nesta consistência está pronto para ir a chapa, unte uma frigideira com um fio de óleo, e deixe no fogo baixo por uns 8 minutos antes de por a massa, caso a sua fique um pouco branca demais, não se importe, nesta imagem a massa está com alguns temperos a mais, não pra dizer necessariamente qual, mas experimente usar, cominho, açafrão, curry, paprica, pimenta do reino ou o que lhe der na telha.

Então no dia 7/05, você poderá experimentar nossas tortillas de salpicão de cenoura com queijo de girassol em formato de panquecas regada no molho de hibiscos e acompanhada com um incrível e suculento risoto de cenoura ao leite de coco com crocantes e sequinhos chips de banana verde.
risoto_cenouraChips-de-bananaTudo isto e muito mais, no nosso SABAMATA – Almoços Veganos com sabores da Mata Atlântica.

SABATAMA – Panquecas Macassar
Dhuzati – Casa lilás da estrada dos macacos, rua da biblioteca da UFRPE
A partir de 12hrs.

Salada PANC, resgatando a coleta no cotidiano

Sempre buscando o mínimo de custo possível e experimentando vivências integrativas com o meio, não é novidade pra muitos nossa busca pela potencialidade alimentícia dos matos que encontramos por aqui. Depois de descobrir a damiana e acresenta-la no chá da manhã e nas saladas improvisadas, tivemos a necessidade de expandir este conhecimento e servir como plataforma propagadora das PANCS e mostrando como ignoramos comida em potencial ao nosso redor.

Nossa salada no último sábado, foi de folhas de damiana , frutos do melão de são caetano e trapoeraba roxa, esta última é um tanto polêmica, pela cor roxa forte, consideramos que podia ter uma quantidade forte de oxalato de cálcio, mas o experimento faz parte da descoberta. Em testes fizemos ela refolgada e comemos cruas em saladas, além de saborosa, na manipulação não percebemos presença forte do oxalato de cálcio. Também tivemos acesso a relatos de pessoas que afirmaram seu uso cru em saladas bem como em sucos verdes (roxos?). A experiência cientifica ficou a cargo Valdely Ferreira Kinupp, doutor em Fitotecnia pela UFRGS, que tipifica a planta em sua tese de doutorado sobre PANCS, segundo o biólogo, não tem problema algum em consumir as flores e ainda relata a experiência de consumo das folhas e ramos cozidos ou na forma de patês. Vale ressaltar a rica composição proteica e mineral desta plantinha.

IMG_20160409_133619A trapoeraba roxa também é conhecida na medicina popular pelo seu efeito diurético, rica em flavonóides, especialmente as flores róseas e ramos arroxeados, seu chá tem efeito diurético, e serve ainda para tratamento das afecções nas vias urinárias, cistite, uretrite e blenorragia.

Trapoeraba-roxa-Tradescantia-pallida-purpurea-1E na busca sobre mais PANCS ao nosso redor, demos um rolê com Fernanda Larocerie, estudante de gastronomia da UFRPE, que também tem um interesse enorme sobre PANCS e já conseguiu mapear algumas dentro da cidade. Primeiramente coletamos a Monguba, espécie de castanha da mata atlântica, mas que cru, tem um sabor que lembra um tipo de coquinho e a Moringa, que tem um sabor bem forte. Ainda nos revelou onde podemos conseguir a maravilhosa Ora pro nobis, e claro que vamos fazer uma mudinha.
IMG-20160412-WA0006Então já sabe né? nossa salada será um mix de novas descobertas
Não percam!

Serviço:
SABAMATA – Estrogonoff de Mangará
Dhuzati – Casa lilás da estrada dos macacos, rua da biblioteca da UFRPE
A partir de 12hrs.